terça-feira, 23 de abril de 2019

Matando Um Dragão Por Dia





Jorge é um homem de 39 anos que passou por poucas e boas na vida até conquistar um mínimo de conforto. Teve uma infância muito difícil, pois sua vida familiar era bastante instável. Apesar de ter pais casados legalmente, sua mãe sofreu muitos anos desassistida da presença do marido. Pelo pouco que se lembra, seu pai era um homem muito mulherengo e teve muitas amantes. Sua mãe, Lida, por ser uma mulher muito apaixonada, aceitava o seu retorno, após longos períodos de ausência, com a promessa de mudança comportamental do marido. Porém, essa mudança nunca acontecia. 

Dadas as dificuldades financeiras, Lida passou a trabalhar de copeira em um bar próximo de casa para que pudesse pagar as contas de casa, já não mais honradas pelo marido. Lida contava com o apoio financeiro dos seus dois filhos mais velhos, João e Geórgia, com dezoito e dezessete anos respectivamente – que já trabalhavam –. mas os salários eram muito pequenos, não garantindo a subsistência de Jorge e Diocleciano, os irmãos mais novos, que tinham 13 e 6 anos de idade. Na época, sentindo a ausência constante do pai, Diocleciano, o caçula, desenvolveu um quadro de diabetes emocional, o que trouxe mais um problema a ser administrado por Lida, naquela rotina já tão dura. Jorge lembra-se de levar a mãe ao portão de casa, nas madrugadas, despedindo-se dela e de seu irmão mais novo, que caminhavam sob a neblina dos dias frios, em busca de um dos primeiros lugares da fila de atendimento do posto de saúde local.

Lida, era uma mulher guerreira, e não deixava se abater a cada paulada que a vida lhe dava. Sua única fragilidade era o amor incondicional ao marido, que a tornava vulnerável. Não conseguia resistir e sempre o aceitava de volta, tendo um comportamento contraditório àquela mulher forte que fazia de tudo pelos filhos. Nos tempos de maior penúria, Lida, para garantir um café da manhã mais saboroso aos filhos, escondia pedaços de queijo e presunto enrolados a sacos plásticos, no meio dos restos de comida que trazia do restaurante que trabalhava para “dar aos cachorrinhos”, como alegava ao seu gerente. Jorge e Diocleciano, comiam felizes os pães dormidos recheados daquelas gostosuras que a mãe trazia. 

Lida, incansável, mas com contas para pagar, tinha que se preocupar também com as refeições dos filhos. Comprava o arroz para garantir o grão principal das refeições e, antes de trabalhar, passava no sacolão da sua rua e não se envergonhava de caçar entre os alimentos estragados, pedaços de verduras e legumes que poderiam ser reaproveitados. O cardápio da semana às vezes era variado: arroz com ensopado de batatas, arroz com ensopado de chuchu, arroz com ensopado de cenoura... 

As coisas eram difíceis naquela época e Jorge não imaginou que um dia poderiam ficar muito mais. Num dia, por volta das 5 horas da madrugada, dona Lida acordou para passar sua roupa para trabalhar quando foi acometida de uma fortíssima dor de cabeça. Minutos depois, sua boca espumava e sua língua enrolava. Seus filhos, desesperados, buscaram ajuda de vizinhos para levá-la ao hospital. Jorge lembra-se claramente da cena em que sua irmã, Geórgia, chegava do hospital acompanhada de um dos vizinhos, aos prantos. Aquele era o fatídico sinal: Dona Lida, num derrame fulminante, morreu aos 43 anos de idade. Naquele mesmo dia, o pai, que já estava fora de casa há mais de um mês, retornaria com promessas aos filhos de que nunca mais os abandonaria. Mas o fez no dia da missa de sétimo dia de morte de Dona Lida, quando disse aos filhos que sairia para resolver um problema e nunca mais voltou. Os filhos mais velhos, a essa altura, já tinham suas vidas pessoais encaminhadas e Jorge ficou dias em casa sozinho com seu irmão mais novo. Em breve a comida também acabaria. Alimentaram-se nos dias seguintes, no almoço, com as merendas do colégio público que estudavam e à noite sua única refeição era feita à base de farinha, açúcar e um resto de óleo velho que ainda resistia na frigideira. 

No auge da penúria alimentar, surgiu Madalena, irmã de Lida e madrinha de Jorge. Ela chegara na casa praticamente abandonada e, ao ver os dois sobrinhos, conferiu a ordem: “juntem suas coisas agora que vocês irão embora daqui!”. Jorge juntou suas poucas peças de roupas e o seu único par de sapatos, parte deles ganhos de doações que a mãe conseguia, dentro de uma sacola de supermercado e seguiu com sua madrinha num cenário também de neblina, parecida com a que sua mãe levava seu irmão mais novo ao médico. Seu irmão passou a morar com sua outra tia, até o dia que seria pego por sua irmã mais velha e seu marido para serem criados por eles. 

Madalena, na época, tinha um filho de um ano de idade, e sua renda até aquele momento era para sustento dele, já que não tinha também o apoio do pai da criança. Jorge começava a pensar numa reviravolta de sua vida mas, sem nenhuma perspectiva de futuro, não sabia como. Até que teve a ideia de fazer um curso profissionalizante e então conseguir logo uma colocação no mercado de trabalho. Era necessário fazer um concurso para se matricular no curso, e Jorge passou a ajudar pela vizinhança, capinando quintais, carregando carrinhos de areia e pedras, ganhando um trocadinho. Com esse dinheiro, pagava uma explicadora e, conseguiu passar no tal concurso. Começou seu primeiro emprego como estagiário em decorrência do curso profissionalizante, e viu-se muito feliz, anos depois, voltando no mesmo sacolão da xepa para comprar, com seu primeiro ticket de papel, legumes, verduras e frutas para ajudar Madalena, sua madrinha que sempre o apoiou. 

Jorge sentiu o gosto da sua primeira vitória e entendeu que mesmo diante das adversidades que a vida lhe impunha, poderia ir mais além. Sua rotina era pesada: morava em um bairro da zona oeste da cidade e trabalhava no centro gastando, em média, quase quatro horas de deslocamento indo e voltando todos os dias, além de estudar à noite. Fez faculdade, duas especializações e passou num concurso público. 

A casa quase abandonada que passou dias sem comer direito foi substituída pelo seu apartamento próprio, onde hoje escreve sua história de amor. As cebolas que um dia sua mãe retirou os pedaços apodrecidos para temperar o arroz de suas jantas e que eram acompanhados dos legumes de xepa, ganharam outra versão em seu paladar, quando provou recentemente um dos pratos mais populares de Paris, a sopa de cebola, em sua viagem de lua-de-mel. O inglês que aprendeu expressões básicas com a explicadora para passar no concurso do curso profissionalizante, foi colocado em prática nas ruas de Londres, pois Jorge gosta muito e, hoje pode viajar. Suas roupas, conseguidas por doação pela sua mãe, se transformaram num closet de onde Jorge, mensalmente, retira algumas peças para doar aos filhos de sua faxineira. O trajeto para o trabalho, que antes demandava quatro horas do seu dia, foram substituídos por 15 minutos de caminhada, pois Jorge comprou um apartamento próximo do seu trabalho. 

Mas Jorge ainda tem muitos planos. A antiga casa de Dona Madalena está em reforma. Jorge quer proporcionar à sua segunda mãe um envelhecer digno e feliz como agradecimento à tudo que ela abdicou para lhe dar educação, carinho e amor. Se ele se sente satisfeito com tudo o que conseguiu? Parcialmente. Jorge crê que pode mais e tem muitos sonhos, que ao longo de sua difícil caminhada, transformou em metas de vida e assim as perseguiu para concretizá-las. 

E foi assim, matando um dragão por dia (com perdão do trocadilho), que Jorge se transformou neste guerreiro da Capadócia Tupiniquim, como tantos que não tem sua história contada. Sua lança é sua carteira de trabalho, que quem deveria cuidar de mantê-la, quer retirá-la. Seu cavalo são suas pernas e braços que nunca o deixaram desistir de sempre querer e poder mais, mesmo correndo o risco de ser atingido pela falta de segurança da cidade onde mora. E hoje, no dia de São Jorge, essa é minha homenagem a todas as pessoas que lutam diariamente e não se furtam à guerra da dificuldade em vivermos numa sociedade tão desigual e tão desamparada. Uma sociedade onde os políticos e os nossos próximos não se preocupam com o real valor das palavras compaixão, respeito e amor. 

Essa história, foi inspirada na minha própria vida e ela não poderia ter sido escrita se não tivesse a participação de tantas pessoas que me ajudaram, especialmente a minha Dona Lida (Adélia) e minha segunda mãe Madalena (Nanci). À minha família, aos meus amigos e aos meus amores, reverbero todos os melhores sentimentos do mundo traduzidos em gratidão. 

E aos Jorges, homens e mulheres desse mundão, minha admiração e respeito. 

Salvem os Jorges!

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Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

2 comentários:

Nancixavierdebrito@yahoo.com.br disse...

Sempre me surpreendendo com sua palavras que me tocam no fundo da alma. Deixemos as mágoas para trás e vamos sempre continuar matando um Dragão por dia e assim vivendo em paz. Agora essa Madalena, ❤❤❤❤❤Te amo meu Jorge .

Josimar Pereira disse...

Texto maravilhoso. Conhecer sua história, me fez te admirar muito mais, pela sua luta e perseverança. Vc é um guerreiro e lutador, exemplo para muitos. Te gosto muito.