sexta-feira, 5 de abril de 2019

Nós e Eles




Apesar de causarem certa repulsa em muita gente, adoro assistir filmes de terror, pois o gênero consegue revelar parte do reflexo dos medos que a sociedade enfrenta.  Desde os primórdios, sempre foi assim.  O Gabinete do Dr. Caligari (1920), por exemplo, é um filme de horror categorizado na estética do expressionismo alemão que evidencia o regime totalitário nazista, através das luzes, sombras, cenários tortos e a manipulação dos personagens. 

Com o fim da Segunda Guerra, também surgia o medo dos conflitos entre EUA e União Soviética na Guerra Fria e a ameaça nuclear, gerando produções com invasões alienígenas e monstros japoneses como Godzilla.

Também tinha os clássicos personagens serial killers, na grande maioria vencidos pela força feminina devido ao empoderamento do gênero – Freddy Frueger (A Hora do Pesadelo), Jason Voorhees (Sexta-Feira 13), Michael Myers (Halloween), Chucky (Brinquedo Assassino) e Hannibal Lecter (O Silêncio dos Inocentes), para relembrar alguns.

Alguns outros já tiveram remakes em épocas distintas e o discurso se adequou perfeitamente com o reflexo que a sociedade vivia naquele momento como no ótimo Invasores de Corpos, que já teve umas 4 versões e que, no original, mostrava nitidamente o sectarismo anticomunista americano durante o período conhecido como macarthismo – caracterizado pelas insinuações, acusações sem prova e entreguismo.  Outra versão já apontava o medo da AIDS, que também ganhou contornos similares na segunda versão de A Mosca (1986) enquanto o original, de 1958, esboçava o tema kafkiano do medo da transformação.   

Em 2017, Get Out (Corra!, no Brasil), foi o primeiro lançamento do diretor Jordan Peele nas telonas.  E, de cara, se tornou um sucesso, principalmente por ter concorrido ao Oscar em várias categorias importantes como melhor filme, diretor, ator e roteiro.  O filme, com um quê satírico e até cômico, compôs uma nova forma de abordagem para contar uma história de terror e suspense com a grande sacada da legitimação da fala das pessoas negras.  Corra! tratava explicitamente sobre o racismo e o olhar preconceituoso dos brancos sobre a tão falada vitimização.   

Essa semana assisti o segundo e tão esperado filme de Jordan, chamado Nós (Us, no original) e saí do cinema chocado.  Fiquei impressionado por comprovar o quanto os filmes de terror continuam, cada vez mais, sendo uma grande alegoria sobre a política e a sociedade atual.

Nós é um longa para se assistir várias vezes, pois não tem como prestarmos atenção nas centenas de referências que ele joga na tela.  Protagonizado pela ótima Lupita Nyong’o, Winston Duke, Elisabeth Moss e Tim Heidecker, o filme conta a história do casal Adelaide (Nyong’o) e Gabe (Duke), que viaja com o casal de filhos para uma casa de veraneio e lá são surpreendidos com uma cópia de sua própria família com comportamentos psicopatas e se tornam reféns de seus próprios clones-vilões.

Há metáforas em vários sentidos diferentes.  Podemos entender que as cópias são nossa própria parte do mal, como se a referência simbólica das tesouras que cada vilão carrega fosse esse exemplo:  duas partes iguais, porém opostas e usadas como arma.  Os coelhos podem ser explicados como uma referência à entrada do mundo subterrâneo e inexplicável como o de Alice no País das Maravilhas – que inclusive ganha uma fala icônica: “somos todos loucos aqui”; o experimento científico ou a analogia com a internet – o submundo dos labirintos-subterrâneos x a reprodução (viralização) das ideias.  As cópias não poderiam ser nosso lado mais obscuro trabalhando da forma mais cruel nas redes?

As cópias não poderiam ser as classes negligenciadas pelo governo, relegadas à base da pirâmide social?  Reparem que em várias cenas as “sombras” tocam objetos como o aveludado das cortinas ou a sensação de um cosmético labial como se fosse a primeira vez que estivessem descobrindo aqueles elementos.  Isso mostra que eles nunca teriam como crescer ou se comportar dentro de um ambiente social – todas as cópias, exceto a cópia de Adelaide (que tem uma explicação, mas obviamente não darei spoiler) não sabem falar.  Só grunhem e são abobalhados, como se fossem zumbis.  Seriam esses seres a classe esquecida e ávida por vingança?

O filme também mostra a polarização dos discursos bem evidenciada pelo governo Trump.  O próprio título faz uma brincadeira Us pode ser interpretado como United States.  A simbologia do ser “invasor” e desconhecido é evidenciada em uma fala: quando Adelaide e sua família encaram as cópias em sua própria casa e questionam “quem são vocês?”, a “sombra” responde “somos americanos!”.  Peele já tinha comentado sobre essa desconfiança que ronda o imaginário das pessoas durante uma sessão de perguntas no SXSW.  
“Estamos em um momento em que temos medo do outro, seja este outro o misterioso invasor que pode nos matar ou tomar nosso emprego, ou a facção que não mora perto de nós e que votou diferente nas eleições. Talvez o mal seja nós. Talvez o monstro para quem estamos olhando tem a nossa própria face.”
Outro assunto incluído no filme como uma forma alegórica é a campanha Hand Across America, que realmente existiu em 1986, como um braço do USA For Africa – aquela do We Are the World.  O Hand Across America tinha também um conceito beneficente e em um dia D juntou mais de 6 milhões de pessoas que seguraram as mãos em uma fila humana durante 15 minutos representando um futuro melhor (aqui certamente dirão que é uma referência ao “Ninguém solta a mão de ninguém”, certamente).  Naquela campanha, cada pessoa deveria doar US$ 10 e ganhar uma camiseta (usada pela personagem no filme).  Essa grana seria revertida para ações contra a fome, só que mais da metade do dinheiro arrecadado precisou ser utilizado para custos operacionais.  Ou seja, uma ação que não levou pra lugar nenhum, pois o objetivo não foi cumprido.  No filme, a explicação é semelhante:  as sombras ocupam o lugar dos outros através da violência, se unem na corrente e, no fim das contas, não vão conseguir absolutamente nada, pois são incapazes de pensar, enxergar ou dialogar.

A cena final, com o menino colocando a máscara de Chewbacca é também um recado e um questionamento: afinal, qual lado é o bom?  E qual é o ruim?  Estaríamos, portanto, vivendo em sociedade paranóica, hipócrita e “de aparências” à beira do colapso e do próprio precipício que causaria sua destruição?
   
Que venham mais filmes assim, pois nossa sociedade precisa urgentemente retirar essas máscaras.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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