quarta-feira, 17 de abril de 2019

Sobrenome: Geminiano




Sou uma pessoa interessada em astrologia. Adoro signos, algo que herdei desde a época em que era fanático por Cavaleiros do Zodíaco (além de aprender a gostar de mitologia grega pelo mesmo motivo). Desde pequeno sei que sou geminiano, na adolescência descobri meu ascendente em Peixes e, já adulto, a Lua em Sagitário. Mais recentemente, tive contato maior com o meu mapa astral, em especial por meio da minha terapeuta, que tem essa visão mais, digamos, mística agregada à ciência. Descobri que tenho Libra na casa 07 e Vênus em algum lugar importante que não me lembro agora... Enfim, eu gosto e acho fascinante. 

Algo que aprendi é que, assim como na vida real, mapa é mapa e terreno é terreno. Uma coisa é o que uma leitura aponta, outra é o que se vivencia e traz de acidentes geográficos, desgaste pelo tempo, intempéries, ação do homem... Serve no sentido literal e no figurado também. Por isso, nunca posso afirmar exatamente que uma pessoa é igual à outra porque nasceram sob o mesmo signo, mas consigo traçar similaridades em muitos casos. Já adivinhei signos só de analisar o comportamento de alguém. Ainda assim, ultimamente ando observando um comportamento que me despertou a curiosidade: tem muita gente usando os seus signos praticamente como um sobrenome. 

Nas redes sociais, em especial no Instagram, o signo muitas das vezes é a primeira característica que se coloca logo após o nome. Sim, eu identifico muitos traços nas pessoas e em mim mesmo por conta do alinhamento dos astros no momento do nascimento. Mas a minha percepção é de que muitos usam o signo quase que como um recado, uma permissão prévia. Tipo: “sou canceriano, logo, sou sentimental”; “sou ariano, logo, tenho gênio forte”; “sou taurino, logo, sou cabeça-dura. E não diga que eu não avisei!”

Desde muito novo, eu não leio o horóscopo ao início do dia justamente para não sugestionar minhas atitudes – às vezes, por curiosidade, leio ao fim do dia para saber se bateu com o que aconteceu. O mesmo vale para cartomantes e outros oráculos: acredito piamente naqueles que os utilizam de forma séria, mas não pauto minha vida por nada através deles. 

Nossa capacidade em lavar as mãos das responsabilidades sobre os nossos atos, em especial sobre os nossos defeitos, se manifesta de diversas formas. É muito comum também quem segue Umbanda ou Candomblé se apoiar nos seus “pais e mães” dentro da espiritualidade para legitimar características não muito legais. Filhos de Iansã são briguentos, filhos de Iemanjá são fofoqueiros, filhos de Omulu são negativos e chegados numa doença, filhos de Oxum são chorões... E, infelizmente, muitos dentro dessas crenças simplesmente delegam à Espiritualidade a responsabilidade sobre seus atos, numa absolvição divina facílima de se fazer. 

Sim, eu acredito que a Natureza ao nosso redor influencia quem somos. Somos poeira dentro de um mundo e de um universo maiores ainda. Por isso, forças da natureza (Orixás) e alinhamentos cósmicos (astrologia), para mim, fazem sentido. Mas não podem nos pautar ou nos isentar daquilo que fazemos e do que precisamos para melhorar. Ainda que seja no Instagram...

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

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