terça-feira, 9 de abril de 2019

Você Tem Fome de Quê? Um Outro Olhar Para o Pecado da Gula




“A gente não quer só comida
A gente quer comida, diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída para qualquer parte”

Esse fragmento da música dos Titãs me inspirou a desenvolver o texto de hoje com as ferramentas que mais gosto: uma música de ponto de partida e analogias. E quando estava escrevendo sobre o primeiro dos sete pecados capitais, já sabia que este seria o início para discorrer sobre a GULA.

“Tecnicamente”, gula é o desejo insaciável, além do necessário, em geral por comida ou bebida. Segundo essa visão, esse pecado também está relacionado ao egoísmo humano: querer ter sempre mais e mais, não se contentando com o que já tem, é até uma forma de cobiça. Em verdade, eu sempre acho que todos os sete pecados estão interligados de alguma maneira. Quem tem acompanhado meus textos sobre esse assunto tem percebido que de vez em quando eu cito um, onde falo sobre outro. 

Mas voltando às analogias situacionais, volto a minha pergunta: “Você tem fome de quê?”. A nossa fome hoje em dia em busca de liberdade de expressão, de direitos iguais, de respeito, de dignidade, de trabalho, de saúde, de educação, de segurança e, claro, de alimentos (desde que seja possível comprá-los), tem se tornado um contraponto à gula pelo poder, pelo comportamento das classes mais privilegiadas e que pretendem criar um vácuo de distanciamento cada vez maiores. Hoje eu, que sempre tive uma visão até simplória do comportamento humano, me sinto assustado. Parece que escrevo toda a semana o mesmo do mesmo. Mas é isso que sinto. Eu dou voltas e sempre paro na mesma reflexão: para onde a humanidade está caminhando?

Me pegando em minha formação teatral, lembro dos estudos onde um dos textos que mais fizeram minha mente viajar em fantasias, a Divina Comédia, famoso poema italiano escrito por Dante Alighieri, os pecados eram abordados através de uma viagem que passava pelo Inferno, Purgatório e o Paraíso, com a finalidade de reencontrar sua amada e falecida Beatriz. Durante sua ousada e perigosa travessia pelo Inferno e o Purgatório, onde foi guiado pelo poeta Virgílio, Dante encarou o horror nestes locais e descreveu, segundo sua concepção, como alguns pecados – o que incluía os sete capitais – seriam castigados no Inferno e no Purgatório. 

Não me estendendo muito sobre a obra, queria chamar a atenção para a Gula e como ela foi retratada pelo autor: Dante concebe, em seu olhar, que no Inferno os pecadores da gula eram castigados no “Terceiro Ciclo do Inferno”, onde se encontravam sob uma forte tempestade com chuva, neve e granizo, além de serem arranhados e devorados por Cérbero, o cão de três cabeças que na mitologia grega era o guardião dos Portões do Inferno. No Purgatório, os gulosos se encontravam nus e com aparência esquelética, aparência de pessoas passando fome e com sério grau de desnutrição, com os ossos salientados sob a carne magra. Ali a pena para a gula era o oposto do que os gulosos fizeram em vida, ou seja, enquanto vivos, abusaram da comilança e da bebedeira e agora, no Purgatório, passariam fome, na tentativa de se redimirem de seus pecados e conseguirem o perdão, senão, cairiam no Inferno, onde seriam atacados por Cérbero. 

Algumas pessoas dizem que tenho mente de carnavalesco, porque puxo uns assuntos dentro dos meus textos que talvez não queiram dizer nada com coisa nenhuma. Minha intenção, às vezes, é despertar essa falta de compreensão para trazer reflexões. O que quero dizer com tudo isso? Que essa analogia é o que vivemos hoje. Simples assim. Temos à nossa espreita muitos Cérberos, prontos e ávidos a nos devorar. A única coisa que não faria nenhuma equiparação é sobre os seres que hoje sofrem cadavéricos, pois essa é a parcela da sociedade injustiçada. 

No meu retrato de inferno-dantesco-terráqueo, eu vejo os excluídos cada vez mais perseguidos. Os que, nos últimos anos, passaram a ter voz, como os negros, mulheres, gays e pobres, começaram a incomodar. Começaram a ter uma participação grande demais, tornando-se uma ameaça de equiparação à uma classe que queria que tudo fosse só dela. A gula pelo poder e que alimenta exageradamente a exclusão social, impedia-a de ser, antes de mais nada, uma classe simplesmente humana. Partilhar e se compadecer, virou algo piegas, desnecessário. Outro dia, conversando com amigos, estava falando sobre os “jantares beneficentes” das altas rodas da sociedade. Nada mais são que um grande apelo de marketing para que estas pessoas se mantenham na mídia e chamem atenção em cima do sofrimento alheio. Pessoas de muitas posses, onde só a roupa que usam para frequentar tais jantares custariam a renda anual de uma família inteira. Cérberos pós-modernos. Devoram a miséria humana para alimentar sua própria vaidade e avareza. 

E com base nesse meu enredo carnavalesco sem sentido, embalado por versos de rock, te pergunto: e você? Tem fome de quê?

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Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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