sexta-feira, 3 de maio de 2019

Beth Carvalho, Madrinha do Samba





O pai de Beth Carvalho, com ideologias esquerdistas, tinha sido cassado em 1964 pela ditadura militar. Para superar as dificuldades, Beth começou a dar aulas de violão, instrumento que tinha aprendido a tocar ainda criança, influenciada pelas canções de Silvio Caldas, Aracy de Almeida e Elizeth Cardoso. 

Certamente, o seu engajamento aos movimentos sociais, culturais e políticos tenha sido herdado por conta da perseguição política que seu pai sofreu. Se no nosso cenário atual as pessoas tivessem “se ligado” no certo deboche e crítica de suas letras, provavelmente estaria sendo taxada de fascista revolucionária, já que Che Guevara era um dos seus ídolos.

Sorte que apesar dessa onda reacionária, nunca cheguei a ouvir alguém dizer que não tinha simpatia por ela. Beth era uma daquelas pessoas singulares e unânimes. E como “madrinha do Samba” foi responsável por revelar nomes como Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Jorge Aragão, Almir Guineto e o grupo Fundo de Quintal.

Lembro-me, bem moleque, quando minha mãe colocava os antigos álbuns de Beth Carvalho para rodar na velha vitrola. Saco de feijão já causava uma certa estranheza ao criticar a desvalorização do poder de compra da classe mais desfavorecida. “Depois que inventaram o tal Cruzeiro eu trago um embrulhinho na mão e deixo um saco de dinheiro (...) de que me serve um saco cheio de dinheiro pra comprar um quilo de feijão?”

E vocês já pararam para refletir que Vou festejar aquela dos versos “você pagou com traição a quem sempre lhe deu a mão” incrivelmente já tem 40 anos? Isso é uma prova que a música de Beth está tão intrínseca na nossa cultura e é tão atual que temos a impressão de que foi escrita hoje de manhã.

Outro clássico que não podemos deixar de relembrar é a sensacional Andanças, a estampa daqueles festivais das canções da época. Uma quarentona que ainda é um retrato da juventude libertária e que não envelheceu nem um pouco. Outro dia, por exemplo, num daqueles bares com máquinas de karaokê da Feira de São Cristóvão, me surpreendi com um grupo imenso de moças e rapazes que, à plenos pulmões, bradavam a melodia inconfundível “me leva amor... por onde for quero ser seu par”. O puro clássico dos clássicos impresso em uma obra prima que se perpetuará.

Beth sempre foi tão incrível que sua música até foi enviada para outro planeta. Quem é que não se lembra que seu hit Coisinha do pai foi utilizado pela NASA para “acordar” o robô Sojourner, que realizava uma expedição científica em Marte?

Mangueirense, botafoguense, brizolista e frequentadora assídua dos pagodes e rodas de samba do Cacique de Ramos, Beth Carvalho, além de revelar músicos, também sempre procurou resgatar velhos compositores, como as irretocáveis regravações de Folhas Secas, de Nelson Cavaquinho, e As rosas não falam e O mundo é um moinho, de Cartola. 

Beth era uma artista que estava onde o verdadeiro “povão” frequentava, numa perfeita sintonia.

Beth pode ter partido, mas sua voz vai continuar ecoando por aí, nos pagodes, nas festas regadas à cerveja e quitutes, nos blocos de Carnaval, nas alas da verde-e -rosa e até nos desertos áridos interplanetários. Afinal, como já dizia o sensacional Nelson Sargento, “o samba agoniza mas não morre... alguém sempre te socorre antes do suspiro derradeiro!”

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

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