quarta-feira, 15 de maio de 2019

Diego Hypolito Quer Falar Uma Coisa




Fomos surpreendidos na última semana com uma carta aberta de Diego Hypolito sobre sua sexualidade. Para muitos, poderia não ser surpresa o fato de Diego ser gay. Mas não deixa de ser surpreendente o seu comunicado a todos, como forma de se libertar de algo que o estigmatizava e o perseguia desde que ele se tornou famoso. Afinal, muita gente já imagina que ser ginasta "é coisa de viado" - ainda mais Diego, que sempre teve trejeitos que poderiam ser considerados mais afeminados, algo que acaba sendo marginalizado até mesmo no meio LGBT.

Logo após o texto de Diego circular e tomar a imprensa e a internet, começou uma série de piadas nas redes sociais a respeito de sua saída do armário. Muita gente ironizando, dizendo que não era segredo para ninguém, que ele não conseguia esconder nada sendo do jeito que era... E esses comentários vindos, principalmente, de LGBTs. Ok, ele pode parecer gay desde sempre aos olhos da sociedade em que vivemos (moldada nos parâmetros do machão inveterado), ainda mais entre outros gays, que têm maior facilidade de identificar semelhantes. Mas, sem dúvida, é nosso dever respeitar o processo de aceitação de cada um com a sua sexualidade. A verdade bate à porta de cada um no momento certo.

Não é difícil entender por que tantos gays se revoltaram ou fizeram gracinha com a carta de Diego: todos os que eu vi fazendo isso já passaram pelo seu processo de saída do armário e, por terem sobrevivido e se libertado após isso, creem que é a obrigação de todos seguirem os mesmos passos. É a velha história de quem emagreceu e julga hoje em dia quem é gordo, porque acha que é "falta de vontade e vergonha na cara". Por termos atravessado esse rio, achamos que todos têm que fazer o mesmo. Mas esquecemos que, para alguns, a travessia é muito mais difícil, cheia de obstáculos, águas revoltas e uma margem do outro lado que pode parecer nunca chegar...

Diego sofreu com esse processo e ponto. Só isso merece a nossa empatia. Se ele achou que "enganava" alguém com os trejeitos dele não é uma discussão que nos cabe. Fazer graça com isso não torna ninguém melhor, só se demonstra cruel com alguém que pela primeira vez resolveu falar isso em público. Um medalhista olímpico, campeão mundial, que caiu de cara e de bunda no chão em duas de suas apresentações mais importantes, mas não desistiu. Alguém que viveu a vida praticamente inteira para ser ginasta (vocês têm noção do sacrifício que é fazer ginástica de forma profissional? Ainda mais no Brasil, sem apoio algum?). Que a sua família, extremamente conservadora e cristã, abdicou de um monte de coisas no interior para viver o sonho dos filhos no esporte. 

Se você não se importou com o que a sua família pensou de você quando você se assumiu ou tomou qualquer outro rumo na sua vida, que ótimo. Mas nem todos serão assim e isso tem que ser respeitado. Porque, para muitos, o medo da decepção é a maior assombração - e até eu que tive uma aceitação relativamente tranquila sofri um pouco com isso (quando contei para a minha irmã, chorava copiosamente com medo de decepcioná-la; de ser o único filho homem, primogênito, e não dar uma nora e netos para os meus pais).

Passei por alguns casos na vida de pessoas que confessaram a mim que seriam gays antes, de fato, de saírem do armário de forma mais pública. Lembro-me da tensão, do medo de estarem equivocados, da vergonha, da dificuldade em tocar no assunto... Ou melhor, lembro de mim também, quando contei a alguns amigos. De todos, talvez a mais difícil tenha sido a primeira vez que contei para um amigo homem hétero, que até hoje é um dos meus melhores amigos e irmãos do coração. Comecei dizendo "quero falar uma coisa", assim como Diego começou em sua carta aberta, recordando as palavras que usou no dia em que contou pela primeira vez para alguém da sua equipe, o também ginasta Michel Conceição, um dos poucos assumidamente homossexuais. E, assim como Conceição, meu amigo Bruno, vendo as voltas que eu dava no assunto, me respondeu "eu já sei o que é", e me acolheu. Hoje parece uma realidade muito distante e não tenho um milímetro de vergonha de ser quem eu sou. Mas um dia isso não foi fácil de se tratar.

Por isso, quando alguém começar dizendo "quero falar uma coisa", antes de mais nada, pare para ouvir. Coloque-se no lugar dele. Entenda. Não julgue. A travessia do outro nem sempre será como a sua. Todos merecem respeito em lutarem contra a expectativa de uma sociedade machista e homofóbica.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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