sexta-feira, 31 de maio de 2019

Em Dias Bons, Não Penso Nela





“Morre quem mereceu  e quem não merecia
morre quem viveu bem  e quem mal sobrevivia 
morre o homem sadio  e o que fumava e bebia
morre o crente e o ateu  um do outro companhia”
(Cadáver Sobre Cadáver – Titãs)

Volta e meia eu abordo o tema da finitude por aqui. Apesar da certeza de que um dia todos nós partiremos, ainda é muito sofrido pensar nisso, pois sempre tive pavor da morte. Não sei explicar se é exatamente o pavor de morrer ou o fato de deixar de viver. Pode parecer para muitos a mesma coisa, mas no meu entendimento, são situações distintas.

Tenho medo de sentir dor. Para mim, dor e morte estão intrinsecamente conectados. Ilogicamente (admito), acabo muitas vezes postergando ações que poderiam promover minha saúde, com medo de sentir dor e morrer. Tenho medo do ataque cardíaco fulminante, da explosão do tiro, da queda do avião, do afogamento. Penso sempre naqueles momentos que devem ser agonizantes, como os que Alfred Hitchcock mostrava nas telas. O cineasta dizia que gostava de captar a expressão do horror que vinha antes do fato que causaria a morte em si: a expressão do medo de alguém tentando se livrar Dela.

De qualquer forma, é um momento. E que termina por mais que pareça ser infinito. É diferente do fato de deixar de viver, que é muito mais assustador para mim. Não sei se é um pensamento um tanto egoísta e materialista, mas essa questão do desaparecimento, por mais natural que seja, não é justo. Cheguei a escrever um conto, certa vez, chamado O Santuário, que revelava um pouco sobre esse temor: passamos a vida inteira construindo um imenso relicário e, de repente, Ela chega sem avisar deixando a construção ao nosso olhar incompleta.

Provavelmente, o trágico acontecimento com o cantor Gabriel Diniz, no início desta semana tenha novamente ligado o meu botãozinho de alerta. Eu não era fã dele nem se suas obras, mas fiquei o tempo todo pensando que ele estava ali, feliz construindo o seu santuário inacabado quando foi surpreendido por Ela. 

Para tentar sufocar esse sentimento estranho que de forma cíclica teima em retornar, sempre relembro de uma das histórias em quadrinhos do escritor inglês Neil Gaiman, chamado O Alto Preço da Vida. Em 1993, Gaiman e Chris Bachalo resolveram desenvolver uma minissérie para a personagem Morte, irmã de Sandman, um dos maiores sucessos do escritor. A história tem início quando um rapaz é interrompido pela sua mãe ao escrever as últimas palavras em uma carta de suicídio. Após essa interrupção, ele decide sair pela cidade questionando a vida e, após um acidente em um lixão, é salvo exatamente pela Morte, que está vivendo um dia como mortal.

Mas aí você deve estar perguntando: “mas que história doida é essa da morte vivendo como um ser humano?”... E é exatamente aí que entra toda a genialidade da trama! A cada século, a Morte vive um dia como um mortal para reviver as experiências que a vida oferece, sem pensar no futuro, consequências ou arrependimentos. E na minissérie, Ela procura relembrar de como é delicioso poder morder uma maçã ou comer um cachorro-quente, entrar em um táxi sem um destino e tentar ressignificar a existência.

Em um trecho, ela tem o seu ankh (a jóia que carrega em seu pescoço) roubado. Aí ela vai no camelô e compra outro semelhante, provando que o mais importante é o simbolismo que ele carrega. E, no fim, em um dos momentos mais pungentes da história, Ela volta a ser Morte e agradece pelo dia maravilhoso, por poder ver gente, respirar, comer e perceber todos instantes que passam despercebidos.

E ali, ela passa a mensagem da importância de passar por coisas boas e ruins, que acabam sendo os agentes transformadores na estrada de cada um de nós por aqui. Para a Morte, o intervalo deste caminho é o que realmente importa, e não a chegada. Em uma conversa com sua própria consciência, ela ainda trava um dos diálogos mais contundentes da HQ.

- gostaria que durasse para sempre e que não precisasse terminar assim...
- sempre termina. É por isso que tem valor. Valeu a pena?
- eu... não sei. Acho que sim. Tomara. Conheci pessoas ótimas... gostaria que durasse para sempre.
- pegue minha mão.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Um comentário:

Márcia Pereira disse...

Brilhante, como sempre! Parabéns!