sexta-feira, 17 de maio de 2019

Ensaio Sobre a Cegueira





Semana passada fomos surpreendidos por (mais) um vídeo bizarro da titular do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Aves, que virou (mais) uma grande chacota entre outras dezenas. No vídeo, cantarolando em tom debochado o tema principal de Elsa, do longa de animação Frozen, a ministra sustenta uma afirmação que a personagem da Disney vive sozinha por ser lésbica.

- Sabe por que ela termina sozinha no castelo de areia... de gelo? Porque ela é lésbica. Nada é por um acaso. Acredite. Gente, eles estão armado (sic), articulado (sic). O cão é muito bem articulado, e nós estamos alienados. Aí agora a princesa do Frozen vai voltar para acordar a Bela Adormecida com um beijo gay. – declarou, para em seguida concluir sua fala com a absurda suposição de que o filme traria impactos negativos na formação das crianças.

- Isso aqui é muito grave, sabe por que, gente? Eu fui menina e sonhei em ser princesa. Eu sonhei com meu príncipe encantado. A gente está abrindo uma brecha na cabecinha da menina de três anos para sonhar com princesa. Isso aqui é indução. - finalizou.

Após a viralização da gravação, a ministra se manifestou em suas redes sociais, surpresa com a polêmica, defendendo-se e afirmando que era um trecho “recortado” de uma de suas palestras e que supostamente havia sido gravado no ano passado em um encontro religioso. E aí entramos na discussão da coluna de hoje: até que ponto vai esse direito de exortar pessoas em nome de uma suposição infundada? Que desejo é esse que se funde com doutrinação fanática? Com que intuito são espalhadas essas notícias falsas? “Alguns dos que estão no poder / são os mesmos que queimam cruzes / matando em nome dele”, como já dizia uma das canções mais conhecidas da banda Rage Against the Machine. 

Obviamente sem o intuito de generalizar, a indústria da desinformação em determinados grupos religiosos chega a ser assustador. Existem fiéis que destroem CDs, discos, livros, aparelhos de som, TVs, vídeo-games pois são “doutrinados” a acreditarem que são coisas “do mundo”. Algumas pessoas são tão fanáticas que literalmente queimam esses objetos, como se ainda estivessem no período da Inquisição, na Idade Média. 

Quando eu era mais novo, conheci um vizinho que tinha um pai tão intolerante que, um dia, arremessou todos os seus discos do Iron Maiden pela janela do prédio. O coitado tinha que sempre esconder os seus LPs com uma capa diferente para que não fossem destruídos pelo fanatismo religioso. Lembro que ele tinha todos os álbuns do Black Sabbath “camuflados” em capas de discos do Richard Clayderman! Foi a forma que ele encontrou para, ao menos, preservar a sua coleção.

Por mais incrível que pareça, tem gente que não ouve Red Hot Chilli Peppers pois associaram a tradução literal “pimentas-vermelhas-quentes-ardentes” à uma vinculação infernal. Outros, não consomem a maionese Hellman´s pois algum ser colocou na cabecinha deles que o produto não possui um sobrenome alemão, mas sim uma “tradução” para “homens do inferno”, assim como aconteceu com a campanha francesa “Je suis gay” (eu sou gay), que se tornou “Jesus é gay” na interpretação alienante. Nestas inúmeras baboseiras até sobrou pra Galinha Pintadinha, que fanáticos alertaram com toda convicção que o desenho animado traria problemas respiratórios para as crianças que o assistissem, por causa do “espírito de Zé Pilintra!”

Claro que tudo isso não é novidade, pois essas polêmicas sempre existiram. Num passado nem tão distante assim, diziam que para cada novela anunciada, a Rede Globo matava seis crianças para obter audiência do público. E os mesmos criadores ainda incrementavam a boataria, dizendo que a própria emissora ainda produzia campanhas no estilo “crianças desaparecidas” só pra dar uma “disfarçada”. Também já teve o boato da Coca-Cola (essa é campeã de histórias fake), que, quando compradas durante o mês de abril, provocaria a loucura e a morte de seus consumidores. 

Quem tem mais de 40 anos deve se lembrar perfeitamente dos pais e crianças abrindo os bonecos do Fofão para encontrar supostos punhais escondidos dentro dele. Na época, vários pais lascavam fogo no pobre do boneco (que era horrível, convenhamos), como uma maneira de se livrarem do espírito maligno capaz de amaldiçoar toda a família. Ah, e quem nunca pegou os discos da Xuxa e tentou ouvir as mensagens satânicas pronunciadas quando se tocava ao contrário?

Hoje, com as redes sociais online, esses boatos ganharam maior projeção. E o mais assustador nessa história toda é vislumbrar que, em um mundo onde obviamente qualquer pessoa devesse ter o mínimo de senso crítico de apurar antes de publicar, ainda somos surpreendidos com essas histórias absurdas que tem o único propósito de disseminar o ódio e preconceito contra grupos já estigmatizados.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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