sexta-feira, 10 de maio de 2019

Estamos Fritos





Estamos fritos.

Vocês já pararam para pensar que grande parte de nossa cultura, na nossa história recente, está descendo bueiro abaixo? Nossa educação, que nunca foi lá grandes coisas, está sendo sepultada, assim como quaisquer incentivos relacionados à produção cultural. Com tantos cortes de verbas, será possível continuar fazendo cinema e teatro no Brasil? Alguns artistas plásticos como o ótimo Samuel D´Saboia - que já foi até comparado como o novo Basquiat - estão fazendo sucesso em Nova Iorque e Paris. Mas e aqui? Alguém conhece este talento?

Museus estão sendo destruídos pelo descaso, centros culturais estão fechando as portas, editoras estão falindo. Nossa língua está sendo descaracterizada. Quem se importa com o uso dos pontos, vírgulas e pontos e vírgulas, assim como o plural de palavras compostas? O ministro da Educação comete a gafe de confundir comida árabe e um escritor tcheco: kafta e Kafka devem ser a mesma coisa, assim como ídolo e fã. Mudam a história a ponto de afirmarem que o nazismo foi um movimento esquerdista. Ou que a Terra não é redonda... Ou seriam os mesmos factoides da cortina de fumaça dos moldes do kit gay, mamadeira de piroca e Jesus na goiabeira?

Estamos fritos e autodidatas.

E antes que eu seja bombardeado – e estou preparado para isso – acho ótimo que possamos adquirir conhecimento de forma autônoma e espontânea, nos transformando em seres autodidatas. Mas não dá pra ser autodidata e se autointitular como "doutor", "mestre" ou "filósofo". Há anos trabalho no território da saúde e consigo compreender muitos elementos da área; mas não posso dar um título como um profissional de saúde. 

Por isso, um indivíduo que nunca teve uma formação acadêmica não pode denominar-se "filósofo" somente porque leu vários livros da doutrina. Aliás, nem as próprias pessoas que se formam em Filosofia não se utilizam desta nomenclatura. Sócrates é filósofo. Platão é filósofo. Poderia nominar uma outra porção aqui... Maquiavel, Hobbes, Spinoza, Voltaire, Rousseau, Kant, Marx, Schopenhauer, Nietzche, Wittgenstein, Horkheimer, Sartre, Levi-Strauss... Incrivelmente, nossa referência tupiniquim de intelectualidade filosófica poderia ser um Mario Sergio Cortella, uma Marilena Chauí, uma Viviane Mosé ou um Leandro Karnal. Mas não. Merecemos um Olavo de Carvalho. Um senhor que há um ano, ninguém nunca tinha ouvido falar. Um senhor que nem mora no Brasil, vende cursinhos pela internet e, entre baforadas de charuto, vocifera palavrões e fala mal do comunismo, esquecendo que ele mesmo foi um - e bem atuante.

Nas artes, poderíamos ser reconhecidos como o país de Tarsila do Amaral, Portinari, Di Cavalcanti, Beatriz Milhazes, Pedro Américo, Iberê Camargo, Visconti... Mas quem é que o pessoal conhece? Romero Britto!

Na literatura, as nossas estantes poderiam estar repletas de romances de Machado de Assis. Poderíamos compreender mais uma Clarice Lispector, um Guimarães Rosa. Poderíamos nos deliciar com as obras completas de Lygia Fagundes Telles, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Jorge Amado, Erico Veríssimo. Mas o povo gosta mesmo é de Paulo Coelho.

Vivemos em um país onde a campanha de um banco é vetada por contar com atores representando a diversidade racial e sexual. E ainda temos que ouvir a desculpa estapafúrdia do presidente da instituição dizendo que vetou mesmo pois o objetivo da campanha não havia sido atingido, já que também não estava no filme "o jovem fazendeiro, o esportista e o nerd".

Vivemos em uma época onde a produção de conteúdo política gira em torno de posts surrealistas no Twitter, mídia que acreditávamos inclusive, que estava caidinha, coitada. 

Eu até queria fazer do texto de hoje algo mais animadinho... Afinal, o fim de semana está aí, mas sinceramente, a impressão que tenho é que, neste exato momento, estejamos sendo tragados por um buraco negro não detectado pela NASA. Uma regressão temporal, um Big Bang ao contrário, uma desconstrução do bóson de Higgs, uma grande era da escuridão.

Mas já que kafta e Kafka, fã e ídolo e nazismo e esquerdismo é tudo farinha do mesmo saco, alguém aí tá preocupado com esse negócio de bóson de Higgs?

Estamos fritos!

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

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