sexta-feira, 24 de maio de 2019

Nada Se Cria, Tudo Se Copia




Todo mundo deve se lembrar do Velho Guerreiro Chacrinha e seus bordões “Alô, Terezinha!”, “quem não se comunica se trumbica” e “eu não vim aqui para explicar, eu vim aqui para confundir”. Mesmo para quem não viveu a divertida época de seus extravagantes programas de auditório com os calouros, suas “buzinadas” e o tão famoso “troféu abacaxi”, conhece o pernambucano Abelardo Barbosa, considerado um dos maiores comunicadores da televisão brasileira, que morreu aos 70 anos em 1988, três meses antes da chegada do primeiro teste da internet no Brasil. 

Chacrinha repetia uma frase sensacional, provocando, com sua incontestável ironia, o próprio meio onde estabeleceu sua trajetória de sucesso: “na TV, nada se cria, tudo se copia”. Hoje, com as mídias sociais online totalmente estabelecidas na rotina da humanidade, o Velho Guerreiro teria um prato cheio para que pudesse explorar.

Certamente Chacrinha diria que hoje, tudo, absolutamente TUDO se copia, pois não há nada de novo no front. Se pararmos um pouco para analisar de uma forma mais ampla, quando foi a última vez que surgiu algo que tenha nos surpreendido? Podemos aqui, citar alguns exemplos como uma forma de exercitar esta linha de pensamento. Programas de televisão estão, praticamente, sendo extintos. Quando surge algo interessante como um Amor e Sexo ou um Tá no Ar, são chancelados com um curto prazo de validade, pois as coisas boas não são feitas para durar... Reflexo do tempo líquido baumaniano.

Não me lembro quando foi a última vez que assisti uma novela. Se não me engano deve ter sido Avenida Brasil, em 2012. De lá pra cá não me recordo de ter acompanhado mais nenhuma trama. O próprio autor João Emanuel Carneiro tentou repetir o índice de audiência nas obras que a sucederam, sem êxito. Das duas, uma: ou realmente nada de novo surgiu ou realmente as pessoas não tem mais saco de ficar sendo refém de uma programação. Alguém ainda fica parado em frente a uma telinha assistindo Supercine ou Tela Quente, com todo um cardápio disponível via streaming pela Netflix? 

Nem nas telinhas, nem nas telonas. Por mais que tenhamos avançado na tecnologia e sagas mirabolantes de lutas pelo poder e construção de heróis, quando sentaremos numa poltrona de cinema para sermos surpreendidos com uma quebra de paradigmas a la Matrix?

Na música sinto a mesma coisa. Apesar de gostar das novidades, amar Radiohead (uma banda que, assim como foi o Bauhaus, só será compreendida pela massa daqui a umas duas décadas), a última banda de rock internacional que sacudiu o planeta foi o Nirvana. E já tem mais de 25 anos que o vocalista Kurt Cobain deu fim à própria vida com um tiro na cabeça.

Sempre digo que estacionei meu nível “sou fã” entre as bandas que estouraram nos anos oitenta, com aqueles sons completamente heterogêneos. Recentemente, uns amigos ficaram surpreendidos com a singularidade do som do Cocteau Twins, uma banda que terminou há mais de 20 anos. Deixaram saudade e continuam chocando os neófitos até hoje. Ainda tinham aquelas bandas sensacionais como o The Cure, Ramones, The Cult, The Smiths, Siouxsie and the Banshees, Joy Division, Echo and the Bunnymen, Pretenders, Simple Minds e New Order. Pós-punk, punk, neopsicodelismo, gótico, pop rock e eletrônico, sem ninguém copiar ninguém, cada um no seu quadrado. Como não se chocar ao ouvir pela primeira vez The Catterpillar (The Cure), How soon is now? (The Smiths), Carolyn´s Fingers (Cocteau Twins), Blue Monday (New Order) ou Thorn of crowns (Echo and the Bunnymen)? Se ainda não ouviu, dá uma “youtubada” e tente entender o que eu estou dizendo.

Posso estar sendo saudosista, mas o videoclipe de Thriller me seduziu muito mais do que as temporadas de Game of Thrones. Michael Jackson se foi, Freddie Mercury se foi, David Bowie se foi. Chacrinha, o velho guerreiro visionário se foi e previu que tantos outros viriam, partiriam e deixariam cópias. Renato Russo, Cazuza, Billie Holliday, Nina Simone, Dalva de Oliveira, Bach, Tchaikowsky... Todos se foram. E eu não estou me sentindo nada bem.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Um comentário:

Márcia Pereira disse...

Perfeito...lúcido como sempre! Nada se cria, tudo se copia...e cola!