quinta-feira, 16 de maio de 2019

O Choro é Livre




Você já sentiu suas lágrimas presas na garganta? Não é bem na garganta. É como se as lágrimas estivessem prestes a cair, os olhos começando a arder e a garganta começando a fechar... Mas você trava tudo e não deixa isso acontecer. 

Relatar o choro é tão pior quanto chorar de fato. É racionalizar algo que nosso corpo faz e nossa alma se livra. Bonita essa reflexão. Acho que terei orgulho dela no futuro. Mas o caso é que estou com um choro preso. Meio entalado e meio saindo aos poucos... Não sei bem explicar como isso acontece, mas é como se a qualquer momento fosse abrir a torneira e seria nada mais que água salgada por todos os lados e um rosto inchado. 

Nunca fui muito do tipo que me emocionava com comercial de margarina ou estava aos prantos após um bom filme água com açúcar. Aliás, poucos filmes foram capazes de me fazer abrir o berreiro. No topo da lista está Lado a Lado (Stepmon, no original), que desafio você a assistir e não chorar com a história de Júlia Roberts e Susan Sarandon. Não consigo ouvir Ain’t no Mountain High Enough e não lembrar desse filme e meus olhos já começarem a marejar... 

Mas independente de qualquer coisa, ando querendo chorar. Não sei se por mim, pela minha vida atual, pelo medo do que vem no futuro... Ou pelo medo em si. Dizem que o tempo deixa as pessoas mais fortes. Ando ficando mais emotivo. Mais emocional. Me apegando ao sentimento que tenho pelo outro. O carinho do amigo, respeito pelo colega de trabalho, admiração pela chefe... São sentimentos distintos, mas carregados de muita emoção. 

Na semana passada eu chorei com um texto. Com a carta aberta do Diego Hipólito. Enquanto lia toda sua trajetória e seu relato sobre o medo, se esconder e o desejo de ser quem ele é, só conseguia pensar na coragem que ele teve que reunir para assumir ao mundo quem ele é de fato. Assumir ao mundo. Assumir algo que não deveria nem ser questionado, mas sempre foi julgado. Existe algo na dúvida da sexualidade do outro que desperta uma curiosidade mórbida, acho que nunca entenderei. E nem quero. 

Assim, assumo que por muito tempo fiz parte do grupo de pessoas que julgou. Achava que o Diego tinha que se assumir logo de uma vez. Que era ridículo ele se manter dentro de um armário imaginário, criado para não assumir algo que “todo mundo via”. Mas isso era confortável pra mim. Era muito fácil pensar e até falar esse tipo de coisa. Eu não sou o Diego Hipólito. Eu não sei o que se passa na vida dele. Eu não sei os medos que ele precisa/precisou enfrentar durante todo esse tempo. Julgar a vida do outro é fácil e confortável, difícil é admitir que não conseguimos enfrentar os nossos problemas e dilemas. 

Quando você assume gostar de pessoas do mesmo sexo, quando você diz que é gay em voz alta, algo muda dentro de você. É um medo que te abandona. É uma sensação de liberdade danada no coração. É como se a vida tivesse muita graça e a gente não soubesse como aproveitar. Mas é preciso dizer. É preciso falar e ouvir, da nossa própria voz, que somos quem somos. É nesse momento que tudo se transforma. A coragem que a gente não sabia possuir aparece. As neuroses que são alimentadas a cada segundo desaparecem. E a vida parece mais simples. 

Chorar deveria ser tão natural quanto assumir quem somos, do que gostamos e com quem queremos estar. Mas a vida não é assim... E somos nós que saímos perdendo. Ficamos com coração pesado e o choro preso na garganta.

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Leandro Faria  
Silvestre Mendes, o nosso colunista de quinta-feira no Barba Feita, é carioca e formado em Gestão de Produção em Rádio e TV, além de ser, assumidamente, um ex-romântico. Ou, simplesmente, um novo consciente de que um lance é um lance e de que romance é romance.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

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