segunda-feira, 6 de maio de 2019

Pop Séries: In the Flesh





Há muito que os seres fantásticos invadiram a televisão e o mundo das séries. O uso de criaturas sobrenaturais para chamar a atenção da audiência é antiga, mas a partir do estrondoso sucesso de séries como True Blood e The Walking Dead, os seres das trevas são presença constante na televisão mundial. E se as duas séries americanas citadas acima usavam e abusavam dos seres fantásticos como um pretexto para uma crítica social, In The Flesh, excelente série britânica de apenas duas (curtas) temporadas, segue o mesmo caminho. E faz isso de forma magnífica. 

Criada por Dominic Mitchell e situada em um mundo que viveu um apocalipse zumbi, In The Flesh tem uma interessante premissa: o que aconteceria se os mortos-vivos pudessem ser curados e reinseridos à sociedade? Mesmo com o motivo da "ressurreição" desconhecida, os que retornaram da morte são diagnosticados com a chamada Síndrome da Morte Parcial e, com uma substância química, podem ser tratados e ter suas lembranças recuperadas. Junte a isso uma maquiagem para disfarçar o aspecto apodrecido natural dos zumbis e, pronto, eles já podem voltar ao meio humano. A convivência dos humanos vivos com esses seres que retornaram e causaram tantos problemas em seu estado não tratado é o foco da série. 

Tendo como pano de fundo Roarton, uma cidadezinha no interior da Inglaterra, acompanhamos em In The Flesh a volta de Kieran (Luke Newberry), que havia se suicidado e retornou da morte na "ascensão" zumbi, ao convívio de sua família depois de ter realizado barbáries em seu estado não tratado. Como o instinto zumbi, como todos sabemos, é matar os humanos para se alimentar de seus cérebros (sempre me lembro de Plants Vs Zombies e seus zumbis dizendo: "Braaaaaains!!!"), é óbvio que os agora tratados da Síndrome da Morte Parcial são vistos como um perigo para os humanos em geral, principalmente em um lugarejo como Roarton, que montou uma unidade com uma espécie de milícia durante o ataque para exterminar os zumbis. 

Usando os "zumbis tratados" claramente como uma alegoria para representar qualquer grupo de minorias atuais, a série tem um tom sério e conquista por nos fazer mergulhar no drama de seus personagens, sejam eles os que retornaram ou seus familiares e vizinhos. Fazendo um golaço ao humanizar os zumbis e, assim, criar uma grande empatia do público para com esses personagens, In The Flesh levanta questões importantes como (in)tolerância e preconceito, assuntos cada vez mais em pauta em nossa sociedade, infelizmente não por motivos nobres. 

Além das claras referências aos problemas atuais, a série é corajosa por ser explícita em suas críticas. Sim, os zumbis podem "representar" determinados grupos e minorias que sofrem preconceito, mas In The Flesh não se furta, por exemplo, de deixar claro que o motivo que causou o suicídio de seu personagem principal foi a relação homossexual conturbada que ele vivia com o melhor amigo. O fanatismo religioso, que faz verdadeiras lavagens cerebrais em tantas pessoas, também é explicitado de forma pungente na série e levanta questões morais e éticas que as religiões sempre tentam encobrir, afinal, quantas barbaridades não são cometidas em nome da fé? 

Com apenas duas temporadas exibidas entre 2013 e 2014 (a primeira temporada com apenas três episódios e a segunda com seis) a série constrói sua trama, amarra as pontas e, apesar de ter um final condizente com o que foi apresentado, deixa várias possibilidades em aberto, que acabaram não concluídas devido ao cancelamento da mesma. Mas a esperança dos fãs (e de quem possa vir a se encantar com essa história) que querem mais de In The Flesh reside no fato de seu criador, Dominic Mitchell, ter anunciado no final do 2018 que um crowdfunding para a produção de um encerramento oficial para a história estava em seus planos. Se isso vai acontecer? Oremos! 

De toda forma, permita-se viajar a um mundo apocalítico e fascinante, com personagens que, além de nos divertir, também nos fazem pensar. In The Flesh é obrigatória para os fãs de zumbis e, principalmente, para qualquer pessoa que aprecie uma boa história com qualidade e conteúdo narrativo. Não perca!

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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