terça-feira, 7 de maio de 2019

Por Onde For Quero Ser Seu Par...




Vocês que acompanham o Barba Feita e as colunas que escrevo, acho que já perceberam o quanto gosto e me inspiro em situações do cotidiano, da minha vida e em letras de canções para desenvolver meus textos. E, não complementando o texto do Marcos Araújo, da última sexta-feira (Beth Carvalho, Madrinha do Samba), mas, pegando carona no tema central escolhido por ele, queria fazer um mix de conto-crônica-real com a música Andança, imortalizada na peculiar voz de Beth Carvalho, falecida no último dia 30 de abril.

Adélia, minha mãe, era fã dessa canção. E eu, como sou fã da minha mãe, virei fã também. Mas depois, fui percebendo que minha simpatia pela obra de Paulinho Tapajós, era muito além da minha afinidade com minha genitora. 

Ela cantava, quando viva, com classe e afinação. Eu me esforçava para fazer a segunda voz os versos que mal conseguia decorar (“me leva amor...”). Lembro-me até hoje do semblante da minha mãe cantando e fico todo arrepiado ao ouvir essa música, e se fechar os olhos, é como se sentisse sua presença ao meu lado...

Quando acabava de cantar, geralmente, também após terminar de lavar a louça, passava por mim e fazia um rápido cafuné nos meus cabelos curtos e crespos com seu sorriso que não me esqueço até hoje. Eu ficava sempre com o rosto quente, como se envolto de um carinho que não tinha hora para acabar. Depois ela recolocava a música, ia para o tanque esfregar algumas roupas que estavam de molho, acompanhada de um cigarrinho no canto da boca. Tornava a cantarolar a canção enquanto eu, sentado no chão a admirava apaixonado. 

Pode parecer utopia, ou vocês acharem que é mentira minha, mas a minha mãe tinha muitos traços físicos da Beth Carvalho. Vê-la cantando me causava um conforto pois era como se minha mãe estivesse reencarnada nela. Minha mãe tinha um “papinho” igual ao dela, a voz rouca (só que no caso da minha mãe, a genética familiar foi reforçada pelos seus cigarros) e quando faleceu, suas longas madeixas lisas, estavam sob o efeito de um recém permanente nos cabelos que os deixavam volumosos e ondulados como os da Beth.

Me tornei fã dela, pois via a minha mãe o tempo todo em seu semblante e na sua gargalhada. Tive a oportunidade de assistir a dois shows seus e, ao contrário do que os amigos que foram comigo pensavam ser em razão de bebida, o meu choro ao ouví-la era como se a minha mãe estivesse ali cantando para mim, como na minha infância ao lavar os copos após o almoço. 

Minha mãe fez muito por mim e por meus irmãos, como já contei em diversos textos aqui, e sempre foi uma presença muito forte em minha vida. Sinto o cheiro dela até hoje, acreditem! Lembro de uma vez que eu, ao vê-la escondida chorando, por questões de sofrimento da vida que eu só entenderia anos mais tarde, ela me dizer com os olhos marejados que nunca abandonaria a mim e aos meus irmãos. Mas... o corpo carnal tem seu ciclo e resta-me crer que ela, de fato, me acompanha por onde vou.

Anos depois, no antigo segundo grau, minha mãe já falecida, participei de um torneio de artes no colégio (nos tempos em que Artes, Filosofia, História e Geografia eram matérias importantes para o curriculum escolar). A atividade consistia em cada turma, no auge de seu aflorar egóico adolescente, produzir um espetáculo artístico e este poderia ser de qualquer natureza: dança, poema, pintura, canto. Era uma disputa acirrada, onde o único troféu era ser reconhecido no colégio inteiro como a “turma vencedora”. E uma das classes “concorrentes” à minha fez uma releitura daquela canção que tanto marcou minha infância. Ali, sentado na plateia, entrei numa espécie de transe e vi minha mãe sorrindo com o seu inseparável cigarrinho no canto da boca, cantarolando e sorrindo como outrora.... Não tinha como eu torcer por mim mesmo. Aquela turma arrebatou meu coração!

Mas, recentemente, a Beth se foi. Ninguém viu, ninguém soube, mas chorei. Sozinho. Doeu muito ver a figura que atribuí a reencarnação da minha mãe partir. Era como se perdesse ela pela segunda vez e, talvez, nesta minha passagem terrena não tenha uma terceira. Resta-me fechar os olhos, lembrar da gargalhada da Beth que se confundia com a da minha mãe, e lembrar dela no tanque, esfregando roupas e me olhando sorrindo ao repetir o verso de forma enfática: “por onde for, quero ser seu par...”

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Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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