segunda-feira, 20 de maio de 2019

Será?




"It's not right, but it's okay
I'm gonna make it anyway..."

Fechei os olhos, senti a música e cantei a plenos pulmões. Pela primeira vez em algumas semanas, eu deixava tudo extravasar. Naquela festa, no primeiro lugar em que fomos juntos depois que nos conhecemos, eu olhava tudo como se eu não estivesse ali, analisando e pensando: "qual seria o comentário se ele estivesse aqui?".

E eu ri sozinho. Porque sabia exatamente qual seria o comentário e o desconforto e o incômodo. E ri me lembrando que foi na saída daquela festa que tivemos o primeiro desentendimento, a primeira briga e a minha primeira promessa de que "não, não mesmo, nunca mais". Tolinho eu. Tolinhos nós. 

Tenho me permitido viver sem você, mas não tem sido fácil. Vejo você em cada canto da minha casa. Ouço sua voz. Vejo seu olhar. E tem o seu sorriso. O sorriso, aquele sorriso que me inundava e quase me explodia. Ele está em todo lugar, principalmente no meu olhar que fica turvo e se enche de lágrimas.

A vida não é fácil, ela nunca foi. Mas quando você tem certezas e, apesar delas, tem de se forçar a dizer adeus, nossa, como dói. Você se sente fraco, infeliz, despedaçado. Mas é a sensação de fracasso a que mais machuca e te persegue feito uma sombra. Você sabe que fez o possível para que aquilo perdurasse, mas a sensação, a maldita sensação te persegue. Será que fez mesmo? E se você tivesse sido um pouco mais forte?

As suas marcas ainda estão pela casa. As suas lembranças estão impregnadas em cada cantinho do apartamento que você ajudou a montar e a fazer de meu lar. E novamente sinto os olhos marejados, o aperto no peito, a sensação de que falhei com você. 

Enquanto digito, nessa madrugada insone depois de chegar meio bêbado em casa, eu paro para secar as minhas lágrimas. Pro mundo, eu voltei ao meu normal. Conscientemente, eu sei que, apesar da dor, eu fui prático e objetivo e tomei a melhor decisão. Mas, por que o meu coração está tão apertado e, apesar das certezas, eu sinto tanta... incerteza? 

Pára. Respira. São 03:29 de uma madrugada de sábado pra domingo e, se eu me predispus a escrever esse texto e a deixar o que me aperta vir à tona, eu não vou novamente voltar pra cama e ignorar essas palavras que teimam em sair. 

Eu realmente não acho que a decisão foi equivocada. Mas eu sinto pela interrupção do que era bom e que ficou no passado, dos sonhos não realizados, por me sentir egoísta por pensar em mim ao invés de no nós. E escrevo pra mim, sem me preocupar em ser coerente ou claro em minhas palavras. É mais um exercício, uma necessidade de deixar que tudo isso transborde.

Entretanto, tudo foi dito por nós dois. Primeiro com raiva, depois com calma e apaziguando as dores, tentando aparar as arestas. Eu sei que foi um fim estranho e doído e abrupto. Mas também sei que, nesse momento, foi necessário. 

Porque nem sempre estar junto é suficiente. Algumas vezes, abrir mão é necessário para nos cuidarmos. E no curarmos. E estarmos prontos pro que a vida nos reserva. 

Mas, nessa madrugada, qualquer certeza apenas aponta para uma única palavrinha: Será?

Não sei. Mesmo. E tenho tentado não pensar. Em tudo. Em nada. Na vida...

"It's not right, bust it's okay 
I'm gonna make it anway
Close the door behind you
Leave your key, 
I'd rather be alone than unhappy..."
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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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