quarta-feira, 1 de maio de 2019

Spoilers: Não Seja o Gordinho da Semp Toshiba




Quando eu era pequeno, existia um comercial que passava na TV sobre os videocassetes Semp Toshiba, no qual um menino gordinho passava na fila de um cinema e começava a cantarolar: “A mocinha morre no final, a mocinha morre no final!”. Depois ele passava de novo e completava: “Quem matou foi o marido, quem matou foi o marido!”. Em ambas as falas, ele terminava dando a língua para os clientes do cinema. A graça era mostrar que, em casa, usando seu videocassete, você não correria riscos de passar por isso – que acabou, posteriormente, ganhando o nome de spoiler. Mas, no fundo, a gente sabe que, em circunstância alguma, spoiler tem graça.

Infelizmente, temos vivido um momento em que há um certo prazer em estragar a surpresa dos outros com filmes e séries. Aliás, a tradução literal de "spoiler" é "estragador" - daí também vem a palavra "spoiled", que é "mimado", ou seja, aquele que foi estragado por outra pessoa atendendo às suas vontades sempre. Isso explica muita coisa: vivemos um período em que somos cercados por pessoas mimadas, que olham apenas para seus próprios umbigos e pensam apenas em si, além de quererem ser vozes ativas em redes sociais, donos de informações exclusivas que ninguém tem. Bum! Está pronto o caldeirão explosivo de spoiled que dão spoilers.

Poucos minutos antes de ir assistir a Vingadores: Ultimato, o que fiz na última sexta-feira, recebi um GIF de um "amigo". A imagem estática de abertura era de uma panicat de costas; se você clicasse, mostrava uma das principais cenas do filme, já próximo ao final, com a palavra "spoiled" escrita na tela. Por sorte, nem eu nem ninguém lá em casa abriu o GIF antes - eu o fiz logo após sair do cinema e fiquei muito chateado com a pessoa que enviou. Certamente, se visse antes, teríamos brigado feio... Eu reclamei e disse que isso não foi legal, nem engraçado. Ele, simplesmente, ignorou o meu protesto. A mesma sorte não tiveram outros dois amigos que abriram o GIF ainda sem ver o filme...

Ainda no fim de semana, também sobre Ultimato, um homem se levantou no meio de uma sessão na cidade de São Gonçalo (RJ) e simplesmente começou a contar o que aconteceria logo após. Houve confusão e o filme só recomeçou 30 minutos depois. Provavelmente, extremamente frustrante para as centenas de pessoas que estavam na sala. Ontem de manhã, ao abrir meu Facebook, vi um conhecido elogiar o mesmo filme, mas colocar: "sacanagem que fulano morreu". Qual a necessidade disso? Qual a real graça disso? Ou melhor: o que a pessoa ganha com isso?

Na semana anterior, fui assistir a Shazam!, um dos heróis que eu acompanhava na minha infância e adolescência (tenho até hoje algumas revistinhas do antigo Capitão Marvel). Dias antes, vi uma pessoa postar umas considerações no Instagram com um poster desenhado que entregava o ápice e principal surpresa do filme. Cheguei a me perguntar: será que a pessoa não tem noção de que isso é um spoiler? Será que ela não percebe que não deveria fazer isso? Ou será apenas a vontade de ser um estraga-prazeres?

Sim, existe gente que pouco se importa em saber histórias. Eu, por exemplo, sabia um bocado das histórias de Game of Thrones e de Star Wars antes de assistir e gostar das duas produções. Acompanhava comentários nas redes sem me importunar, lia matérias para ficar informado... Era uma decisão minha. Conheço pessoas que leem o fim do livro para depois ver como o autor chega até lá, porque acham o caminho mais divertido do que a finalidade. Ok. Decisão delas. Agora, não decida por ninguém o que deve ou não surpreendê-la... Não seja o gordinho da Semp Toshiba.


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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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