sexta-feira, 14 de junho de 2019

A Madame Está de Volta




Madonna sempre foi uma grande estrategista. Por isso, não acho que mudou muito sua forma de pensar desde que lançou seu primeiro single, Everybody, em 1982. Na época, muitos acharam que ela era negra pois na capa ou contracapa do disco não há uma foto dela, somente colagens de fotos nova-iorquinas, em um conceito bem urbano. Madonna sabia que precisava ganhar a galera do Bronx. E conseguiu.

No melhor estilo Bowie-de-ser, inventou centenas de personagens. Foi a noiva intocada de Like a Virgin, a Marilyn-individualista de Material Girl, a mulher fragilizada em Live To Tell e a independente em Papa Don´t Preach. Foi do extremo de ser santa em Like a Prayer a puta em Justify my Love. Flertou com o R&B, folk, country, gospel, com a fase disco setentista, explodiu nas pistas de dança contemporânea, criticou o modo de vida americano, foi autobiográfica e confessional.

E em seu 14º disco, que saiu nesta sexta-feira, Madonna é tudo isso e mais um pouco. Aos 60 anos, Madonna ainda bate em muita garotinha por aí, provando que ainda é a rainha do pop e das polêmicas.

Recentemente, recebeu diversas críticas negativas por ter participado do Eurovision em Tel Aviv, que já vinha sido alvo de desaprovação por causa do conflito entre israelenses e palestinos na ocupação da Cisjordânia por tropas de Israel. Bobbie Gillespie, líder do grupo escocês Primal Scream, inclusive, classificou a cantora como uma “prostituta desesperada” por ter aceitado o convite, afirmando que “Madonna faz tudo por dinheiro”.

Em Madame X, todas as personagens estão de volta. Em seu perfil do Instagram, disse que ela “é uma agente secreta viajando ao redor do mundo. Trocando de identidades. Lutando por liberdade. Trazendo luz à lugares escuros. Ela é uma dançarina, uma mestre, uma chefe de estado, uma dona de casa, uma equestre, uma prisioneira, uma estudante, uma mãe, uma filha, uma professora, uma freira, uma cantora de cabaré, uma santa, uma prostituta. Uma espiã na casa do amor.” 

Morando em Portugal há quase dois anos, Madonna volta a flertar com os ritmos latinos – como já feito em Spanish Eyes e La Isla Bonita, só que desta vez é como se observasse o mundo moderno e assustador por um buraco de fechadura. O novo disco aborda o controle de armas, extrema pobreza, mulheres estupradas, exclusão de direitos femininos e da comunidade LGBTQ e uma crítica feroz à extrema-direita. Com cinco singles já lançados – o divertido reggaeton Medellin (com Maluma), I Rise, Crave (com o rapper americano Swae Lee), Future (faixa produzida por Diplo) e Dark Ballet (uma referência a Joana D´Arc em uma canção esquisitona por causa das mudanças nas dinâmicas – que vai do pop comercial ao anti-comercial em segundos), o disco também tem uma grata surpresa para os brasileiros: a presença de Anitta (sem trocadilhos com a série rs) na faixa Faz Gostoso, um funk sensual que traz uma divertida brincadeira com as línguas “better throw that cachaça away” e que tem um grande potencial para animar as festinhas. 

Madame X não deve atingir as paradas de imediato. É um disco ousado, esquisito, sinistro, obscuro e ao mesmo tempo com nuances solares. Por isso mesmo é muito interessante, pois revela uma cantora que não mudou suas estratégias e não se acomodou.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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