sexta-feira, 7 de junho de 2019

Agoniza, Mas Não Morre





Quem me conhece sabe que não perco um desfile de escolas de samba.  Faço isso desde que era bem pequeno e muito de minhas inspirações vem de elementos que absorvi no mundo mágico das fantasias, carros alegóricos, sambas-enredo e aquela correria frenética dos barracões.

Todo mundo já está completamente careca de saber que, desde os primórdios, as escolas de samba sempre tiveram o apoio de “patronos”: homens que comandavam a agremiação através da contravenção, como o jogo do bicho, por exemplo.  Em praticamente todas as escolas, os chamados “bicheiros” ditavam o patrocínio para literalmente pôr o bloco na rua.  Por isso, acho patético a ponto de revirar os olhos quando dizem que fulano, beltrano ou sicrano “é suspeito de ter ligação com o bicho”.  É só olhar para trás e ver enredos como “Sonhar com rei dá Leão”, de 1976 para ver a resposta. 

Hoje, a maioria dos bicheiros já está nas últimas.  Outro dia, em um evento sobre Carnaval, estavam juntos Anisio Abraão David, Capitão Guimarães, Luizinho Drummond, Turcão e Jaider Soares.  Somados, quase 500 anos de história.  Seus herdeiros continuam, cada vez mais, enveredando pelo caminho dos baticuns dos tamborins, porém, com um viés bem diferenciado como o que víamos entre os anos 70 e 90, já o jogo do bicho e as maquininhas de caça-níqueis já não são mais uma febre. 

Neste contexto, as escolas precisaram se modernizar e apareceram novos carnavalescos, mesmo que logicamente ainda influenciados pela quina de ases dos mestres Rosa Magalhães, Arlindo Rodrigues, Fernando Pamplona, Renato Lage e Joãosinho Trinta.  Hoje se trabalha com sustentabilidade e foi necessário investir em gestão de projetos, apesar de isso ainda ser quase que um palavrão dentro da administração de algumas agremiações.

Entretanto, tenho a impressão de que os desfiles tornaram-se protocolares demais.  Nunca mais presenciei uma verdadeira explosão do público na arquibancada, um samba cantado a plenos pulmões ou algo revolucionário como os inesquecíveis desfiles de Joãosinho Trinta, que organizava muito bem as suas narrativas e ousadias para os 700 metros da Sapucaí.  Sim, estou sendo saudosista como aquele velho enredo da Caprichosos de Pilares (que nem existe mais) chamado “E por falar em saudade...”

Temos um bispo prefeito que odeia Carnaval.  E que desde sua posse nunca apareceu para a tradicional cerimônia de entrega das chaves da cidade pelo Rei Momo, confundindo gosto pessoal com protocolo institucional.  Um indivíduo que inventa números para dizer que a festa dá prejuízo, sendo que notoriamente é o evento que gera mais lucro e visibilidade para a cidade, juntamente com o réveillon.  Um ser que a cada ano mingua ainda mais a festa com a desculpa de que está transferindo recursos para os hospitais e creches, apesar de ninguém ver melhoria alguma nestas áreas.

E aí, ainda para piorar o cenário, os manda-chuvas da Liga Independente das Escolas de Samba, com seu formato quadradão há quase quatro décadas, resolveram se reunir esta semana para mudar um regulamento.  Nele, revogaram o rebaixamento da escola Imperatriz Leopoldinense, outrora bicho-papão do Sambódromo nos anos 90 e 2000.  A própria escola de Ramos, que na sua história já foi rebaixada três vezes, se beneficiou do quarto rebaixamento em 1988 com a Unidos do Cabuçu para no ano seguinte ser a campeã com o clássico “Liberdade Liberdade abra as asas sobre nós” na emocionante disputa com o célebre “Ratos e urubus, larguem minha fantasia”, da Beija-Flor.

O fato é que por 8 votos a 5, os chefões decidiram manter a Imperatriz Leopoldinense no grupo especial, fazendo com que o presidente da Liesa, Jorge Castanheira (que não concordava com a decisão) renunciasse ao cargo.   No velho estilo “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, essa decisão só afasta ainda mais patrocínios e parceiros para essa nova forma de se tentar manter o padrão dos desfiles.  E, obviamente, mancha de vez uma credibilidade tanto questionada pela prefeitura, que agora tem garfo, faca, queijo, goiabada e guardanapo para limpar os beiços e atirar a sua “metralhadora cheia de mágoas” para todas as direções.

Vale ressaltar que Portela, Vila Isabel, Viradouro, Mangueira e Beija-Flor votaram contra essa nova virada de mesa.

Muito triste ver no que um espetáculo tão grandioso se transformou.  Mas meu lado otimista e fã do samba ainda tem esperança de que ainda possamos assistir uma nova explosão apoteótica neste enredo, tal qual a beleza da letra da célebre canção de Nelson Sargento.
Samba,
Inocente, pé-no-chão,
A fidalguia do salão,
Te abraçou, te envolveu,
Mudaram toda a sua estrutura,
Te impuseram outra cultura,
E você não percebeu,
Mudaram toda a sua estrutura,
Te impuseram outra cultura,
E você não percebeu.
Samba,
Agoniza mas não morre,
Alguém sempre te socorre,
Antes do suspiro derradeiro.
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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

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