sexta-feira, 21 de junho de 2019

O Abatedouro





“Um escritor grego disse que a democracia só funciona quando os ricos se sentem ameaçados. Caso contrário, a oligarquia toma o poder. De pai pra filho, de filho pra neto, de neto pra bisneto e assim sucessivamente. Somos uma república de famílias. Umas controla as mídias, outras, os bancos. Elas possuem a areia, o cimento, a pedra e o ferro. E, de vez em quando, acontece delas se cansarem da democracia, do Estado de Direito. Como lidar com a vertigem de ser lançado em um futuro que parece tão sombrio quanto o nosso passado mais obscuro? O que fazer quando a máscara da civilidade cai e o que se revela é uma imagem ainda mais assustadora de nós mesmos?”

Na madrugada desta sexta-feira tive duas crises de choro compulsivas.  Dormi com os olhos em chamas e despertei assustado após a provável sensação dos sonhos intranquilos de um Gregor Samsa, de Kafka.  Estava exausto e não parecia sequer que tinha pregado o olho.  Dentro do meu sonho, estava o som do alarme do celular e meu cérebro me introduziu a uma situação de devaneio, como se procurasse uma defesa para que eu não despertasse.  Uma freada seguida de um estrondo me trouxe de volta à realidade.  Ao meu lado, o celular ainda apitava e, com neste impulso de sons misturados, abri os olhos no quarto  escuro.  Por baixo do blecaute, os raios de sol tentavam penetrar e então abri a janela de vez, me cegando por completo.

Nem consegui enxergar direito o que tinha acontecido na esquina.  Provavelmente mais um acidente entre tantos outros comuns, ali naquele mesmo lugar. As imagens do filme Democracia em Vertigem estavam sendo projetadas em looping na minha mente.  Já tinha escrito outro texto para apresentar a meus leitores do Barba Feita e, no metrô, a caminho do trabalho, resolvi mudar tudo.


Pensei inicialmente em deixar este material para semana que vem, mas em sete dias adiante, a angústia teria dissipado, talvez.  Aprendi que quando escrevemos, grande parte de nossas dores passam a ser compartilhadas.  Não que eu queira que vocês sintam o peso do sofrimento, mas compreendo como um pedido de ajuda, para que me ajudem a carregar o fardo nas costas.

A princípio, não consegui ver o filme sem parar na primeira hora de exibição.  Ali, tive minha primeira crise de choro e precisei parar.  Fui até a cozinha, sentei no banquinho de madeira e, com um copo de água nas mãos, estiquei as pernas e fiquei um bom tempo olhando para o nada, me preparando psicologicamente para assistir o restante, exatamente a mais obscura.

Logo no início, me senti muito mal com aquelas observações tão certeiras... Da analogia em mostrar o nome de nosso país ao pau-brasil, uma árvore extinta pela própria ganância dos nossos antepassados,  da corrupção estrutural e sistêmica desde o seu “descobrimento”.

A medida em que o filme avançava, a tensão e a tristeza iam tomando conta de mim.  Não havia ali nenhuma cena que me causasse espanto ou surpresa.  Como cidadão, sempre busquei questionar e analisar os dois lados. A comunicação e o jornalismo me ajudaram, decerto.  A grande maioria das observações estavam, inclusive, nas entrelinhas de meu segundo livro, que lancei no ano passado, no período turbulento das pré-campanhas eleitorais.  Acho que minha maior angústia foi perceber que as dores do passado parecem não ter deixado as cicatrizes na memória.   Será que os cortes precisam ainda ser mais dilacerantes?  Caminhamos como gado.  E por mais que sejamos marcados a ferro e fogo, parecemos anestesiados.

Democracia em Vertigem estreou na Netflix no último dia 19.  É uma obra imprescindível para que as pessoas entendam de uma vez por todas os principais motivos que levaram o país em que vivemos a buscar um outro caminho por intermédio do ódio.  Está tudo ali, revelado nos detalhes, nos gestos, nas expressões.   Todas as artimanhas políticas estão ali retratadas desde os tempos da ditadura militar, a construção de Brasília, a formação, erros e decadência do Partido dos Trabalhadores,  a ascensão da extrema-direita, os conluios, as trocas de favores, os agentes e manifestações que levaram à crise política-social que dividiu o país e a ameaça a uma democracia ainda tão jovem.  Dirigido por Petra Costa (que também já tinha feito Olhos de Ressaca, Elena e Olmo e a Gaivota), a própria diretora se coloca como protagonista dos acontecimentos políticos que marcaram o nosso país, desde a primeira vitória de Luis Inácio Lula da Silva e sua reeleição, a indicação da ministra da Casa Civil Dilma Rousseff como sua sucessora, o golpe que a depôs; o governo Temer e a eleição do ex-militar de extrema direita Jair Bolsonaro.  

Petra, claramente de esquerda, é neta do fundador da Andrade e Gutierrez, uma das empreiteiras envolvidas na Lava Jato. E com um acervo pessoal muito rico, ela tem acesso a vídeos inéditos e consegue depoimentos íntimos de Lula, Dilma, Jean Willys, Aécio Neves, Bolsonaro, narrando a partir de sua própria história.  A exibição do filme, antes de ter sido adquirido pela Netflix, teve estreia mundial no Festival de Cinema de Sundance, em janeiro de 2019, ou seja, muito antes de surgirem os primeiros vazamentos entre Sérgio Moro e Dalton Dallagnol (aquele mesmo procurador do “power-point” que diz que a falta de prova é a maior prova para incriminar alguém), o que deixa a obra mais impactante, dando ainda mais luz ao documentário, as observações sobre as conspirações político-midiáticas, as defesas dos interesses das elites.  Ou seja, as operações nunca foram para combater a corrupção. 

No fim, Democracia em Vertigem não nos dá uma luz. Mas apresenta uma percepção que o povo é lúcido. Ele compreende a segregação ideológica que o Brasil se transformou. Mas me dá uma pena absurda (e talvez essa tenha sido o meu principal motivo para as crises de choro) de que podemos ser ludibriados – pelos políticos, mídia e empresariado – sem nos apresentar chances para que tenhamos forças para lutar. É a velha imagem do gado seguindo o mesmo caminho, sendo marcado a ferro, em direção ao matadouro. 

E, enquanto isso, a elite segue, autoconfiante.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Um comentário:

Márcia Pereira disse...

Eh, ôô, vida de gado...povo marcado eh, povo feliz!