terça-feira, 11 de junho de 2019

O Dia Dos Namorados e o Marketing De Oportunidades





Desde o início deste mês você provavelmente viu por aí um monte de coraçõezinhos nas lojas, cartazes com casais de todos os tipos, gêneros e idades felizes para todo lado e sugestões de presentes para ele e para ela em várias revistas e comerciais de TV. Mas amanhã, quando terá chegado finalmente o Dia dos Namorados, proponho que olhe à sua volta e reflita: será que a realidade bate com os anúncios?

Na coluna de hoje não vou falar sobre como dar as dicas perfeitas de presente ou meus textos sentimentalóides sobre o Dia dos Namorados (mesmo porque agora está meio em cima da hora, né?), não vou sugerir o que você deve comprar para ele ou ela, nem vou reclamar do fato de essa ser uma data totalmente comercial. Em vez disso, queria aproveitar essa oportunidade para conjeturar com vocês sobre o que a galera que faz parte da sociedade que no dia-a-dia é excluída e execrada rende aos grandes comerciantes e que em nada defendem ou lutam por seus interesses legitimamente.

O problema é que esse tipo de propaganda carregada de estereótipos são até bonitas, mas na prática não funcionam quando se trata de respeito e inclusão reais. O fato é que a questão da neutralidade dos gêneros e tendências sexuais continuam sendo não só tabu, mas uma fonte fortíssima de preconceito no Brasil. Quando o tema tem a ver com dinheiro e rentabilidade, a defesa da diversidade é feita com unhas e dentes, como se fosse a coisa mais normal aqui neste país. Mas os tempos em que vivemos mostram que não é assim. Quantos precisam lutar todos os dias para exigirem respeito pelas suas escolhas? Quantos sofrem violência por terem a coragem de assumirem suas reais personalidades? Ou, pior, quantos se anulam para serem “aceitos”?

Mas a boa notícia é que assim como o preconceito ressurgiu das cinzas nos últimos tempos, a resistência também tem se fortalecido. Embora ainda haja muito preconceito e aversão por alguns setores da sociedade, o público que não faz parte da “tradicional família brasileira” - digo, a parte hipócrita dela - está cada vez menos disposto a se esconder e mais propenso a exigir o espaço que lhe é de direito, principalmente como cidadãos pagadores de impostos e que movimentam (e muito!) a máquina daqueles que lhes apontam os dedos de julgamento. 

Em minhas pesquisas, li que, segundo o último censo do IBGE, os homossexuais representam 10% da população brasileira – oficialmente, são mais de 20 milhões de pessoas. Você pode até pensar: o que são 20 milhões em um universo de 207 milhões de habitantes? Ok, vamos colocar esse número em perspectiva: a população declaradamente homossexual do Brasil é quase metade da população total da Argentina, pouco menos que a população total da Austrália e mais de duas vezes a população total da Suécia. Ainda parece pouco? Esse número provavelmente é muito maior. Atualmente, o censo do IBGE não inclui uma pergunta direta sobre identificação de gênero e orientação sexual – esse número foi calculado com base nas respostas de pessoas que, quando perguntadas com quem viviam, responderam que com um parceiro/parceira e que esse era do mesmo sexo. Ou seja, esse número fatalmente é maior do que o divulgado.

De alguns anos para cá, algumas marcas vêm veiculando campanhas de Dia dos Namorados que defendem que toda forma de amor merece ser celebrada. Mas rolam informações que estas próprias marcas apoiam uma política de exclusão e tipicamente preconceituosa. Antes de qualquer iniciativa, é preciso lembrar que a inclusão não deve ser considerada apenas um item no checklist de relações públicas. Quem vai nessa direção acaba construindo uma mensagem rasa e estereotipada. É importante que o discurso seja coerente com todas as práticas da empresa e não um marketing de oportunidade (você compra meu produto, mas eu abomino tudo o que você representa).

Então, todas as marcas precisam levantar a bandeira e se tornar porta-vozes ativas de questões relacionadas à diversidade? Acredito que o essencial é que elas percebam o poder e a responsabilidade que têm para criar um novo retrato da sociedade, com visibilidade e reconhecimento, de fato, para todas as pessoas, sejam elas héteros, homo, trans ou qualquer outra designação que pertençam. E a propaganda pode até ser um bom começo, mas suas ações reais precisam coincidir com essa conduta e não mais uma hipócrita oportunidade de ganhar dinheiro, sem levar em consideração que todos somos, antes de tudo, seres humanos.

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Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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