sexta-feira, 28 de junho de 2019

O Dia Seguinte de Raissa





Não me lembro direito da primeira vez que conheci a Raissa. Acredito que tenha sido em um dos eventos ocorridos enquanto eu trabalhava no hospital. Na época, Raissa tinha acabado de descobrir uma doença grave, que poderia ter abreviado sua passagem: leucemia linfoide aguda. Foi quando se internou e iniciou um tratamento severo, que se transformou em um dos momentos mais difíceis de sua vida, a afastando de tudo que ela mais gostava: da faculdade que tinha acabado de entrar, dos amigos e de coisas simples como simplesmente beber um copo de água. Vieram as complicações, a queda dos longos cabelos devido ao efeito da quimioterapia e a distância entre as horas.

Tento me recordar do primeiro encontro sempre. Mas só consigo me lembrar de que todos os dias, antes de eu ir embora para casa, subia até sua ala de internação e passava para dar um “oi”. Muitas vezes a encontrava desacordada sob os fortes efeitos dos medicamentos e a fitava pelo vidro da enfermaria, mentalizando um abraço. Juro que muitas vezes percebia um sorriso. Outras vezes, mesmo grogue, fazia questão de puxar papo sem falar “coisa com coisa”. Mas, na maioria das vezes, os momentos que permanecíamos juntos eram verdadeiras festas regadas a super gargalhadas que precisávamos conter para não incomodar os outros pacientes. Imaginávamos um título de um futuro livro para os nossos “causos”: Risadas à Beira do Leito, entre fios, seringas e máscaras de oxigênio. Isso deve ter sido há mais de dez anos.

Uma vez a encontrei muito mal. Raissa estava desenganada pelos médicos e cheia de máquinas ligadas a seu frágil corpo, já debilitado pela doença. Naquele dia, fiz uma oração por trás do vidro da enfermaria e fui para casa já esperando a triste notícia na manhã seguinte, que feliz e inacreditavelmente, não veio. Assim que cheguei ao trabalho, naquela manhã cinzenta de inverno, Raissa estava com um sorriso imenso me esperando. Lembro que com a voz ainda bem instável, Raissa me perguntou: “está sol lá fora? Daqui não consigo ver o céu”. Disse que o dia estava chuvoso e nublado e, ao reparar que eu estava todo “encasacado”, ela me disse algo que nunca esqueci: “por mais que o dia pareça cinza, acima das nuvens o dia sempre está lindo... e hoje o dia está lindo, pois estamos aqui, respirando”.

Nos momentos em que me encontrava triste, por qualquer motivo, eu sempre me lembrava daquelas palavras. Enxugava as lágrimas e esperava pelo dia seguinte. Afinal, o dia seguinte sempre vem.

Em alguns momentos do duro tratamento, Raissa já não conseguia mais falar... mas se comunicava através de um caderninho, cheio de cor e frases. Acho que aquela energia toda sempre a manteve viva. E, um dia, o dia seguinte veio. Raissa entrou na minha sala, chorando e rindo ao mesmo tempo e me deu um abraço apertado... a doença havia ido embora. Choramos, rimos e pulamos juntos, que nem crianças. "A beleza da vida é a superação" ela disse, antes de ir.

Mesmo morando em Cabo Frio, todas as vezes que vinha ao Rio, arrumávamos uma maneira de nos encontrar. E sempre vinha acompanhado de um caloroso abraço, sempre demorado e cheio de energia. E nossos papos seguiam intermináveis, sem hora para acabar.

Um dia, o outro dia chegou. Raissa precisava iniciar uma nova luta. Depois da leucemia, enfrentaria ainda um câncer. E venceu novamente. Depois de anos, chegou o terceiro. Desta vez ainda mais agressivo. Parecia, de alguma forma, que a vida estava o tempo inteiro, testando a sua força. “A beleza da vida é a superação”... 

Um dia, Raissa não abriu mais os olhos. E mesmo com o sol da manhã brilhando novamente, tenho a certeza de que em seu mundo, assim como as gargalhadas, o sorriso e o abraço caloroso, a manhã chegou.

Afinal, o dia seguinte sempre vem.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Um comentário:

Márcia Pereira disse...

Essas histórias que perpassam nosso cotidiano são lições de vida! Cada dia um aprendizado diferente, não tem como não absorver.