terça-feira, 25 de junho de 2019

O Mistério de Irma Vap: 22 Anos Depois

Fotografia: Marcos Araújo




Olá, pessoas! Bem, como todos sabem, minhas colunas não são dadas a tecer críticas de espetáculos, shows, filmes, séries ou clipes. Essa é mais a vibe dos meus colegas. Mas eu, como ator (um pouco fora de forma, confesso, mas ainda muito apaixonado pela arte de interpretar), não poderia deixar de escrever sobre essa peça que fui assistir despretensiosamente no último fim de semana. 

Confesso que não tenho como tecer um paralelo sobre sua primeira montagem aqui no Brasil, que ganhou forma pelas mãos dos magos Marco Nanini e Ney Latorraca, e meu objetivo aqui é justamente o de dar minha impressão pessoal sobre um produto novo, inédito para mim. A primeira e icônica montagem brasileira do texto foi dirigida pela saudosa Marília Pêra e estreou em 1986 (eu tinha apenas seis aninhos, façam suas contas...) e ficou em cartaz durante surpreendentes 11 anos consecutivos, o que garantiu ao espetáculo o registro no livro Guiness em 2003, e tornando-se inspiração para produção do filme brasileiro Irma Vap - O Retorno, em 2006, com direção de Carla Camuratti, porém sem o mesmo sucesso, talvez pela magia do texto original dar-se justamente nesta troca contínua de roupas pelos atores. Nas minhas aulas de formação de ator, lembro de um professor ter dito que essa peça ficou marcada na história do teatro por uma espécie de “gincana de troca de figurinos” por Nanini e Latorraca e desde que sua remontagem foi anunciada, nosso colunista de sexta, Marcos Araújo, já havia me dado esse mesmo spoiler.

A atual montagem, estrelada por Mateus Solano e Luis Miranda (acompanhados de um ótimo elenco de apoio, diga-se de passagem), é a quarta de que tive notícia e dura exatas e imperceptíveis duas horas, sem intervalo. O texto foi montado pela primeira vez em 1984 em um pequeno teatro em Greenwich Village, em Nova York, nos Estados Unidos, pela companhia Ridiculous Theatrical Company, do próprio autor, Charles Ludlam. Ele fez uma paródia dos clássicos e inspirou-se em um gênero da Inglaterra Vitoriana chamado penny dreadful (que pode ser traduzido como terror a tostão) para criar um novo tipo de comédias. 

O novo espetáculo, agora dirigido por Jorge Farjalla, tem a proposta de expor aos olhos do público essa mesma troca de roupas e enfatizar ainda mais o texto e o trabalho dos atores (e que trabalho!). Eles literalmente teatralizam o backstage, e muitas das vezes aos olhos do público. Nós, como espectadores, nos sentimos dentro de um grande conto de fadas (ou de terror?) onde os atores são como grandes magos, criando tudo na frente do público e fazendo-nos acreditar naquelas situações e que realmente tratam-se de pessoas completamente distintas devido ao magnífico trabalho de corpo e voz de ambos. Acredito que essa encenação ousada só tenha sido possível graças ao talento de Luis Miranda e Mateus Solano. Os dois são de uma genialidade artística que os trabalhos televisivos sempre me limitaram em analisar. E eles têm juntos uma energia tão maravilhosa que nunca sabemos se os diálogos (que nos fazem gargalhar a cada cena) são inteligentes sacadas da direção ou cacos perfeitamente adaptáveis e consequentes desta sintonia.

Diferente da história original, a nova versão é situada em um trem fantasma de um parque de diversões macabro e, por vezes, percebemos referências a alguns clássicos de filmes de terror como Pague para Entrar, Reze para Sair, de Tobe Hooper, e Os Pássaros, de Alfred Hitchcock, com uma estética muito anos 80, com alusões à sucessos como o emblemático videoclipe de Thriller, de Michael Jackson. Além disso, percebi que a obra também tem várias citações de Shakespeare, principalmente de Hamlet

A trama original se passa em um lugar remoto da Inglaterra e conta a história de Lady Enid (Solano), a nova esposa do excêntrico Lord Edgar (Miranda). Ela tem que se adaptar a viver em uma mansão mal-assombrada pelo fantasma da primeira esposa de seu marido, Irma Vap - lugar onde o filho do casal foi morto por um lobisomem e, para retomar o amor de seu marido, come o pão que o diabo amassou e pratica peripécias extremamente divertidas. Na casa há ainda dois empregados: a sinistra governanta Jane (Miranda), que assume a posição de rival da recém-chegada, corroída em seus ciúmes, não admitindo a possibilidade da existência de uma segunda Lady Montepico, e Nicodemo (Solano), cocheiro de personalidade esquiva e, por vezes, inocente. 

Mas o que vemos ao final, é um exercício de humor, técnica e inteligência dos artistas em cena. O Mistério de Irma Vap é uma história propositadamente escrita para dois únicos atores viverem todos os personagens, num alucinante jogo que vai muito além das inúmeras trocas de roupas, mas de personalidades e emoções que oscilam de forma muito rápida e precisa. O texto do autor consegue prender a atenção do espectador, e o talento da direção brincando com chavões de suspense, terror, comédia e da própria situação político-social que vivemos atualmente no Brasil, acrescentando saborosas doses de ironia, numa criação que atesta brilhante domínio cênico, me fez sair do teatro com a sensação de “quero mais”.

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Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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