quinta-feira, 27 de junho de 2019

Uma Mulher no Escuro: O Novo Livro de Raphael Montes





Raphael Montes é um dos meus autores nacionais favorito. Meu primeiro contato com sua obra foi através do maravilhoso e eletrizante Dias Perfeitos. Acho que nunca irei superar toda trama de Teo e Clarice; já aceito como um fato. Só que isso não significa que Suicidas, O Vilarejo e Jantar Secreto, outros livros do autor, não sejam tão maravilhosos quanto. Eles são. Só que não é sobre as obras antigas que quero falar hoje, mas sobre Uma Mulher No Escuro, nova obra do carioca de 29 anos. A trama narra a vida de Victoria Bravo que, aos quatro anos, logo após sua festa de aniversário, teve sua família assassinada, sendo a única sobrevivente. Anos depois, tentando levar o que consegue chamar de vida, Victoria acaba possuindo só um amigo - feito pela internet - , uma tia que mora em um asilo e seu psiquiatra que visita semanalmente. 

Durante a leitura da nova trama só conseguia pensar o quanto Victoria me lembrava de Sidney Prescott, minha protagonista favorita do universo de filmes de terror. Em comum? As duas escolheram seguir com suas vidas após passar por uma grande tragédia. 

Tudo bem que a vida de Victoria não é perfeita. Ela trabalha em um café, é ex-alcoólatra e visita apartamentos disponíveis para alugar com Arroz, seu único e, talvez, melhor amigo. Mas essas visitas possuem um elemento por trás. Os dois querem ver como as outras pessoas levam suas vidas. Os apartamentos que eles escolhem pisar possuem famílias que ainda estão morando naquele ambiente, é isso que ambos querem ali, poder conferir um pouco de como é a vida na casa com aqueles moradores, com uma vida normal, assim como qualquer outra pessoa. Isso até já pode soar meio macabro, mas combina com Victoria. Talvez seja nessas visitas que ela encontre vislumbres de como poderia ter sido sua vida e de toda sua família, caso a tragédia não lhe tivesse feito uma visita. 

Já meu filme de “terror” favorito é Pânico (Scream, no original). Gosto do roteiro e da ideia completamente simples da trama, que possui inúmeras referências da cultura pop do final dos anos 90, quando internet era só uma ideia e telefone celular servia só para ligar mesmo. Mas uma coisa é inegável, não só nesse filme, mas como em toda franquia: Sidney Prescott, a protagonista de todos os quatro filmes produzidos. 

Por muito tempo, mais precisamente até 1996, nos filmes (ainda tidos como) de terror a mocinha sempre fugia do assassino ou do perigo iminente, realizando muitas burradas pelo caminho. Lembro da sensação de assistir Pânico, escrito por Kevin Williamson, pela primeira vez lá em 1997, e me encantar por uma personagem que ia de encontro ao perigo, que duvidava do clichê da loira peituda que fugia escada acima quando era bem melhor sair correndo pela porta da frente. Acima de tudo, Sidney Prescott ria na cara do perigo! Uma das cenas clássicas, ao menos pra mim, é da personagem conversando com o assassino ao telefone e abrindo a porta de casa em que estava, depois ouvir a ameaça de que o assassino estava no lado de fora. Quem em sã consciência faria isso? Em todos esses anos assistindo aos filmes desse gênero, só Sidney Prescott teve essa coragem. E na literatura nacional contemporânea, tenho absoluta certeza de que Victoria Bravo também tomaria a mesma decisão. 

E assim como na franquia Pânico, Victoria também tem que enfrentar o retorno de seu algoz. O assassino está decido a brincar um pouco com sua vítima em um clássico jogo de gato e rato. Ele vai oferecendo pistas sobre o passado, permitindo um novo olhar sobre a família perdida da protagonista. E fazendo com que a gente se questione o tempo inteiro sobre o que de fato está acontecendo. 

A trama prende do início ao fim, mas diferente do que aconteceu em Jantar Secreto e Dias Perfeitos, algumas reviravoltas acabaram não surtindo um efeito tão surpresa em mim. Pode ser porque não consigo confiar inteiramente nas informações que Raphael Montes vai disponibilizando ao longo de sua obra, confio desconfiando do que os personagens dizem, eles podem e vão surpreender quando a gente menos imagina. Acho que por já conhecer um pouco da forma com que Raphael Montes guia seus personagens e seu enredo, fui prevendo a construção de determinadas reviravoltas, que não chegaram a me chocar com o ineditismo, mas pela coragem de ser feito. 

Uma Mulher no Escuro foi lido em uma só tacada, o que é o lado mais positivo do autor em todas as suas obras. Chega uma certa altura que até vamos criando algumas pausas longas, mas só para ter por mais tempo o livro em nossas mãos.

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Leandro Faria  
Silvestre Mendes, o nosso colunista de quinta-feira no Barba Feita, é carioca e formado em Gestão de Produção em Rádio e TV, além de ser, assumidamente, um ex-romântico. Ou, simplesmente, um novo consciente de que um lance é um lance e de que romance é romance.
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