quinta-feira, 25 de julho de 2019

007: Mulher e Negra




Não sei se você sabe, mas o próximo filme da franquia 007 quase teve outro ator interpretando o tão lendário personagem: Bond. James Bond. Idris Elba era um forte candidato. Acho até que é o ator perfeito para o papel. Ele tem a virilidade que o personagem traz desde Sean Connery, o primeiro Bond. 

Assumo que eu sou da época que o Pierce Brosnan assumiu o papel, em 1995, apesar de só ter 10 anos de idade ali, mas já gostava da dinâmica de filmes de espião, apesar de Missão Impossível, de 1996, ser o meu filme favorito do gênero. Mas voltando para Bond, Pierce sempre teve um belo de um charme, tem até hoje. E isso passou para o seu agente secreto. Entendi que além de muito competente, 007 tinha que seduzir mortalmente. Em 2006, Daniel Craig assumiu o smoking e deu um ar ainda mais sedutor para o espião, caso isso ainda fosse possível.

Mas a saída de Brosnan e a chegada de Daniel não foi tão tranquila quanto muitos podem imaginar. Muitos fãs fervorosos do personagem criticaram a idade do novo agente da MI6; ele era considerado jovem demais. Sendo que na época o ator tinha 38 anos... Até a altura do ator entrou como pretexto para reclamarem da escalação. Segundo algumas pessoas, Bond não poderia ter só 1,76 de altura... E assim chegamos até o momento atual: Bond 25, próximo filme da saga. 

Daniel Craig está cansado de ter o mesmo personagem por 13 anos e não queria fazer mais um filme, que iniciou sua preparação em 2016. Os produtores cogitaram colocar um novo ator como Bond. E assim,  Idris Elba foi um dos nomes pensados para ocupar o cargo. Só que após algumas críticas dos fãs, aqueles fervorosos, além de muito preconceito, o ator desistiu dessa possibilidade, deixando de lado a chance do personagem ficar mais vivo do que nunca. Sem Idris e sem outras opções que fossem tão atraentes quanto, a produção conseguiu manter o seu James no barco e seguiu o seu rumo... Ou mais ou menos isso. 

Muitos roteiros foram escritos e roteiristas trazidos para reescrever o material anterior ou dar novos rumos para trama. O roteiro final acabou nas mãos de Phoebe Waller-Bridge, criadora da série de humor ácido Fleabag (está disponível na Amazon Prime) e showrunner da primeira temporada de Killing Eve (disponível no Globoplay). A missão de Phoebe é dar uma polida na história e deixar os personagens mais humanos e de fácil conexão com o espectador. O que não é nada fácil no atual momento que o mundo está. Só que uma das mudanças já foi anunciada e... desagradou os fãs. 

Isso porque Bond ainda existe e continua sendo interpretado por Daniel Craig, mas ele está aposentado quando a história começa. E se ele não ocupa mais o cargo 007, nada mais natural do que alguém novo para a vaga. Só que esse alguém é uma mulher. E negra! Preciso falar mais alguma coisa? Desde que essa notícia saiu eu já li os mais diferentes argumentos. Alguns falam que o filme já perdeu a graça. Outros dizem que Bond está querendo "lacrar" ao ser inclusivo. E teve um comentário dizendo que essa mudança não faz o menor sentido. 

Bem, vamos lá. Acho que se uma mulher fosse "vestir o manto" de Bond, James Bond, poderia ficar estranho, realmente. Mas, nesse caso, ela vem ocupar UM NÚMERO que possui permissão para matar, ou seja, não é a mesma coisa. Bond vai continuar existindo nesse filme e sendo feito por um homem branco e hétero. O que muda é que a agente 007 é uma mulher negra. Falar que o filme JÁ PERDEU A GRAÇA é não ter argumentos. Ninguém assistiu o filme ainda. Ninguém sabe se, de fato, os dois formarão uma dupla ou se essa nova agente ficará até o final do filme. Pode ser que M acabe por trazer de volta seu fiel escudeiro antes mesmo de uma hora de película rolando e, no final, essa mudança entre Bond homem x 007 mulher, não signifique absolutamente nada.

Ver um bando de homens reclamando e dizendo que estão estragando os filmes, só me faz rir. Afinal, desde 1953 as mulheres são objetos nos filmes de James Bond. E uma mulher carregar o número máximo ligado ao herói é visto (por alguns) como algo ruim e errado... Sendo que ninguém teve acesso ao roteiro para saber se essa "novidade" será mostrada de um modo que fará todo o sentido do mundo, ou não. 

Fato é que, 13 anos atrás Daniel Craig foi duramente criticado e hoje é visto como um Bond perfeito. Será que o mesmo, no futuro, não pode acontecer com uma mulher? Já pensaram que o personagem perdeu uma chance única de ser feito por um grande ator negro? E tudo isso por puro preconceito de uma parcela de "fãs" do personagem que querem ficar limitados a cor de pele e ao gênero apresentado nos livros. Será que não ocorre para nenhum deles que James Bond não existe e que ele é uma pura e simples obra de ficção? É mais ou menos o lance da pequena Sereia, sendo que nem Sereia e nem James Bond existem no mundo real...

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Leandro Faria  
Silvestre Mendes, o nosso colunista de quinta-feira no Barba Feita, é carioca e formado em Gestão de Produção em Rádio e TV, além de ser, assumidamente, um ex-romântico. Ou, simplesmente, um novo consciente de que um lance é um lance e de que romance é romance.
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