segunda-feira, 1 de julho de 2019

A Gente Chora, Mas Segue em Frente





Tenho sangrado demais
Tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri
Mas esse ano eu não morro...

Às vezes, eu tenho vontade de chorar. Em outras, de ter uma Manopla do Infinito e, como Thanos, ter o poder de exterminar 50% da população mundial (mas fazendo isso, muito sinceramente, deixando a aleatoriedade de lado e escolhendo bem quem iria sumir). Já em outras ocasiões eu, agnóstico que sou, apenas oro: oro por um arrebatamento que leve o povo de ~deus~ pra bem longe daqui, para um céu idílico e idealizado, para que a humanidade restante finalmente possa continuar a evoluir sem esse tipo de gente bizarra que saiu dos esgotos nos últimos anos.

É triste ver onde chegamos. E isso me dói como nunca achei que pudesse acontecer.

Eu chorei assistindo Democracia em Vertigem, documentário de Petra Costa. Pela sensibilidade da narrativa, é claro, mas também por viver um mini-flashback-gigante ao assistir ao filme. Ver tudo desenhado, explicado, mastigado, me incomodou demais. Mas foi um sofrimento necessário que, infelizmente, não tocará a todos, porque tem gente que nem entenderá o que assistiu ali (ou sequer se dará ao trabalho de conferir a um documentário que já estreou tornando-se histórico).

Também chorei lendo uma crítica do filme live-action da Turma da Mônica no blog do Sadovski, no UOL. E o choro nem foi pela análise do filme Turma da Mônica - Laços, que ainda nem assisti (e quero muito), e sim por ter sido idiota o suficiente para entrar na parte de comentários e ler tudo o que os cidadãos de bem escreveram, perdendo um tempo enorme de suas vidas para agredir alguém que conferiu um filme que eles próprios não viram mas que, em sua ignorância, já taxaram de esquerdista, seja lá o que isso signifique, apenas por ter a Mônica Iozzi em seu elenco. Além de chorar, tive ódio e, muito honestamente, vontade de vomitar, desmaiar e acordar em um mundo em que todas essas pessoas não existissem mais.

Também sofro um pouquinho todos os dias ao entrar na página do grupo do meu bairro no Facebook (Moradores do Catete, Glória e Largo do Machado). Ali, na verdade, tenho sentimentos antagônicos: ao mesmo tempo que lamento a estupidez de uma grande parcela de vizinhos que comem seu capim matinal juntamente com sua dose de ignorância, tenho uma vontade absurda de abraçar tantos outros, pessoas lindas que eu  nem conheço mas já considero tanto, apenas por sua fina ironia e deboche para com os minions que nos rodeiam. Gostaria de ser amigo pra vida, jogando conversa fora, tomando cerveja e rindo dos idiotas inúteis que cercam a nossa vizinhança. 

Em muitos dias, eu tenho vontade de chorar no meu trabalho ao olhar pra uma porção de gente que é analfabeta funcional, massa de manobra e nem percebe quão idiota é. E por ser obrigado a, infelizmente, estar no mesmo ambiente que eles, tendo de ignorar o seu lado vil e fascista, fingindo que está tudo bem, mas evitando o máximo que posso qualquer tipo de conversa que não seja estritamente necessária e profissional. Minha poker face, mais que nunca, vem sendo utilizada.

Eu choro também ao pensar no passado e em tantas promessas de um futuro promissor que, no fim das contas, virou um presente quase distópico. O Brasil é o país do futuro! Doce ilusão. Somos o país do retrocesso, do analfabetismo funcional, dos cidadãos de bem hipócritas e que fedem mais do que bosta remexida.

Mas tento conter as lágrimas ao pensar em nosso futuro, aquele que ainda não veio e cujo caminho trilhamos diariamente. A história, como aprendemos e testemunhamos, é cíclica. Há tempos de trevas e tempos de luz. Se tivemos avanços recentes e agora nos assustamos com a lama que nos cerca, por que não acreditar que esse período obscuro também há de passar e ser substituído por dias melhores e de verdadeira prosperidade e inteligência?

A gente chora muito. Todo dia. O tempo todo. Pelo que poderia ter sido e no que acabamos nos tornando. Mas seguimos em frente, orando para quem quer que seja, que os dias sombrios dêem lugar à paz e a iluminação intelectual e efetivamente humana.

Can I get an "Amen" up in here?

Amém. Por favor.

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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