terça-feira, 9 de julho de 2019

Abaixo Ao Padrãozinho!





Nas últimas semanas venho refletindo sobre esse tema que tem feito parte, cada vez mais constantemente, das minhas rodas de conversas: o que significa a expressão “padrão de beleza”? O conceito de beleza já passou por diversas mudanças ao longo do tempo. No período renascentista, por exemplo, mulheres mais rechonchudas eram tidas como belas e associavam-se à ideia de fartura, riqueza e fertilidade. Na atualidade, contudo, nota-se que o padrão de beleza é justamente o contrário da Renascença. Corpos magros, músculos definidos e uma incessante busca pela perfeição mostram que a sociedade impõe modelos, por vezes, inatingíveis e que trazem prejuízos tanto físicos como psicológicos às pessoas, além de desconstruir a anatomia individual. 

De forma inconsciente, toda a população se vê inserida nesse processo de padronização. Há aqueles que tentam, a todo custo, se aproximarem do ideal de beleza estampado nas revistas, passarelas e na televisão, recorrendo a cirurgias plásticas, tratamentos rejuvenescedores e dietas tão radicais que acabam colocando suas vidas em risco. Por outro lado, há aqueles que negam-se a uma adequação a esses modelos estéticos e para eles resta o isolamento causado pelo preconceito de uma sociedade que tem a felicidade fundamentada no culto ao corpo. Digo isso, pois eu mesmo tenho passado por esses questionamentos. Sempre fui um cara bem vaidoso e, muitas vezes, sucumbi à essa negação de ser quem eu era e vivia numa busca constante de ser quem a sociedade queria que eu fosse. 

Entretanto, os malefícios da cultura da beleza não se limitam apenas ao físico; a saúde psicológica também é agredida. O modismo e a rápida mudança dos padrões estéticos tornam cada vez mais difícil atingir a imagem ideal. Logo, a frustração por não conseguir acompanhar as tendências vem acompanhada de baixa autoestima que acarreta vários problemas como depressão, distúrbios alimentares e sentimento de impotência. 

Embora a aparência seja o primeiro aspecto a ser visto numa pessoa, é inadmissível que a beleza seja definida por um único estigma. Ao contrário, o conjunto de características individuais como a cor da pele, o tipo de cabelo, os traços do rosto e as curvas do corpo, torna cada indivíduo dono de uma beleza própria. Assim, os padrões preestabelecidos roubam a peculiaridade do ser, fazendo com que o indivíduo se transforme para ser aceito em seu meio social. 

Nesse sentido, tomando as palavras de Confúcio, “ainda não vi ninguém que ame a virtude tanto quanto ama a beleza do corpo”, ficando claro que a sociedade padroniza a estética de tal forma que a aparência passa a ser mais importante que o próprio ser. Sendo assim, poderíamos concluir que não é de hoje que os conceitos de padrão de beleza possuem boas doses de crueldade e legitimam um discurso velado de preconceito?

"Cabelos lisos ficam mais bonitos" 
“Loiros chamam mais a atenção" 
“Olhos claros são mais impactantes" 
“Barriga tanquinho é sinônimo de ‘homão da porra’”

A questão principal é: onde você está tentando se encaixar é onde você realmente vive feliz consigo mesmo? A máxima do “para toda panela há uma tampa” deve valer para o gordo, para o negro, para o magrelo, para o barrigudo, para o careca, para o barbudo, para o branquelo, para o novinho e para o velho. 

Somos únicos. E merecemos ser amados pelo que somos.

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Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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