sexta-feira, 5 de julho de 2019

E Quando Eu Não Estiver Mais Aqui?





Recentemente, muitos de nós aqui no Barba Feita temos feito várias reflexões sobre a morte ou a perda. O meu texto da semana passada, O Dia Seguinte de Raissa, assim como o que publiquei no fim de maio, Em Dias Bons, Não Penso Nela, falava explicitamente sobre a morte. O Julio Britto trouxe o mesmo tema em A Vida é um Sopro, em 28/5, assim como o Paulo Henrique Brazão na coluna desta semana em Não Estamos Aptos a Dizer Adeus. Não sei se é coincidência, mas o ano de 2019 tem sido terrível. Além de vislumbrarmos uma terrível nuvem negra pairando sobre o Brasil no contexto sociopolítico e das tragédias notórias com personalidades, também temos sido surpreendidos com perdas de pessoas queridas ao nosso redor.

É claro que, à medida que vamos envelhecendo, as pessoas que estão próximas a nós vão partindo. É a tão esperada “ordem natural das coisas” que, por mais que tentemos driblá-la a qualquer custo, surge, nos deixando sempre inconformados. Como já disse, o maior incômodo é imaginar que Ela sempre chega deixando a construção, ao nosso olhar, incompleta. 

Quando somos bem jovens, nunca pensamos nisso. O jovem é sempre um super-herói. Pulamos, saltamos, mergulhamos, apostamos, desafiamos... e tudo de olhos fechados. Acreditamos tanto que somos invencíveis que, se caso algo der errado, foi certamente um golpe do cruel destino. Mas, quando vamos colecionando as rugas do tempo, passamos a ser mais criteriosos, sem querer dar chance ao acaso. Ou então, pode ser que com o passar dos anos, estejamos cada vez mais presos às nossas relações, como aquelas velhas árvores fincadas na calçada, que tem suas raízes expostas, mas ao mesmo tempo estão tão profundas e escondidas, como o lado submerso de um iceberg, que é bem maior do que a exposta.

Ainda raciocinando pelo mesmo exemplo da árvore, já repararam que, quando há um temporal, muitas vezes elas são arrancadas, deixando um rombo imenso? Sei que depois de algum tempo virá um fiscal da Prefeitura que fará o replantio de uma nova muda e recolocará as pedras portuguesas em seu devido lugar. Mas durante quanto tempo aquela cratera ficou ali, visível? É essa mesma sensação que associo à perda.

E quando eu não estiver mais aqui? Como será o dia seguinte? O dia estará cinzento? A rotina do meu trabalho será afetada? O coração das pessoas ficará destruído? Certamente não. Pode ser que chova, mas também pode fazer um dia lindo. Pode ser um fim de semana. Pode dar praia. As demandas da firma não cessarão. Os telefones continuarão a tocar, certamente alguns colegas relembrarão com pesar de “causos” rotineiros na hora do almoço ou o assunto será discutido na copa, durante o cafezinho. E no fim do dia, todos retornarão para suas casas.

A família doará as minhas roupas. Algumas ficarão como lembrança. Amigos chorarão vendo fotos, sentirão o meu perfume pelos ambientes da casa e associarão à minha presença espiritual. Sentirão a minha falta nos grupos de WhatsApp; das minhas piadas sem-graça, da minha cara de choro ao acordar, do meu bom-humor ranzinza e debochado. 

Algumas coisas ficariam estagnadas, como se aguardassem eternamente a vinda de um técnico para repor as pedras portuguesas da calçada. Certamente cessariam as brigas para trocar o canal da TV ou as perguntas à busca de um resumo para os personagens da novela das nove. Não haveria mais um projeto de férias com todo o roteiro esquematizado de atrações. Meus maiores companheiros chegariam atrasado nas sessões de cinema e lembrariam de mim dizendo que se eu estivesse lá, já teria comprado os ingressos com antecedência. Sentiriam minha falta ao relembrar de como consigo me afogar no chuveirinho da praia do Leme ou de como me cagava todo comendo o sanduba do Cervantes. 

Algumas pessoas releriam meus livros. Pegariam antigos vídeos do Dubsmash e das dublagens da Laurinha no Snapchat. Assistiriam as apresentações das minhas bandas no YouTube ou as gravações de singles no Spotfy. Deixariam recados na timeline do Facebook e no Instagram. Relacionariam os brigadeiros, a Beija-Flor, o Fluminense e o Echo and the Bunnymen às lembranças que vivenciaram enquanto estavam ao meu lado. 

Talvez seja por isso que eu tenho tanta ânsia em aprisionar momentos, tal como as obras do Farnese de Andrade. Ali, naquelas fotografias e bonecos mergulhados em resina, estariam sempre visíveis fragmentos de memória. 

(...)

Curiosamente, enquanto terminava este texto, me deparei com uma postagem do querido Pedro Nercessian em seu perfil no Facebook e que ia totalmente de encontro com o que eu estava apresentando aqui, até então:
“Mais um amigo morreu essa semana. Esse ano tá querendo nos dizer o óbvio; tudo acaba. E está tudo bem. Todos morreremos. Querer ser eterno é uma vaidade tremenda. Viver até os 100 é melhor do que viver até os 30? Qual a diferença pra quem morre? Existe um ditado oriental que diz que nossa existência deve passar e ao fim nada modificar, esse seria o equilíbrio perfeito. O extremo oposto do pensamento repleto de ego do ocidente que diz que devemos modificar o mundo, sermos lembrados por nossas glórias e (em algum lugar) sermos eternos. Não somos, nada é. Vamos aceitar, dói menos."
Depois de ler isso, bateu uma grande vontade de chorar. E ao mesmo tempo, de fazer tudo ao mesmo tempo agora, sem ter a vergonha de ser feliz em todos os momentos que a vida nos proporciona.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Um comentário:

Márcia Pereira disse...

Que seja infinito tudo aquilo que nos faz bem... "é a vida, é bonita e é bonita"