sexta-feira, 26 de julho de 2019

Momentos Que se Perdem Como Lágrimas na Chuva





Lembro que detestei o filme Blade Runner quando o assisti pela primeira vez. Hoje compreendo que por ser ainda um adolescente à época em que foi lançado, em 1982, ainda não tinha a maturidade necessária para decifrá-lo. Anos depois voltei a assisti-lo e é impressionante como ele me tocou de tal forma que, até hoje, o filme dirigido por Ridley Scott ainda está na lista dos meus top 10. Apesar de não ter sido um sucesso de bilheteria, Blade Runner certamente mudou a história do gênero da ficção-científica.

O filme, baseado no livro de Philip K. Dick, se passa numa hostil, caótica, chuvosa e distópica Los Angeles no ano de 2019, entre telas de led gigantescas e prédios cinzentos, quando os robôs tornaram-se tão perfeitos que se assemelham aos humanos. Eles possuem sentimentos, vontade própria e se apaixonam. Lembro perfeitamente que, assim como o autor e o diretor imaginavam, eu também vislumbrava um ano de 2019 cheio de naves dando rasantes entre os prédios em um climão pós apocalipse. O ano em que vivemos atualmente era ainda muito longínquo para as nossas mentes.

No longa, o ator Harrison Ford interpreta Rick Deckard, um agente com a incumbência de destruir os androides que estariam espalhando o terror pela cidade após terem se rebelado contra o seu criador. As máquinas, que trabalhavam em colônias de humanos em outros planetas, tinham um tempo muito limitado de funcionamento. E a rebelião se deu simplesmente pelo fato dos replicantes desejarem “viver” mais.

O ator holandês Rutger Hauer, cuja morte aos 75 anos foi noticiada esta semana, fez o inesquecível replicante rebelde Roy Batty no longa. E uma das cenas mais marcantes e icônicas para a história do cinema acontece exatamente no final, após um confronto entre os dois. Roy salva a vida de Deckard, impedindo que ele caísse do alto de um prédio. Como o androide percebe que seu tempo está se extinguindo, reproduz o diálogo que marcou para sempre uma geração.
Eu vi coisas que vocês, humanos, nem iriam acreditar. Naves de ataque pegando fogo na constelação de Oreon. Vi Raios-C resplandecendo no escuro perto do Portão de Tannhäuser. Todos esses momentos ficarão perdidos no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer.
Até hoje carrego uma parte dessa frase como um lema. Por mais que pareça bucólica demais, no fim, tudo passa. Lágrimas de tristeza ou alegria se perdem no tempo, se misturam com a chuva e se esvaem.

E aqui temos mais um exemplo a vida imita a arte. Hauer se foi no mesmo ano em que seu personagem também deixou a vida em Blade Runner.
And all those moments will be lost in time, like tears in rain.
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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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