sexta-feira, 19 de julho de 2019

O Anjo Pornográfico





Gostaria de ter conhecido pessoalmente Nelson Rodrigues, um dos meus autores nacionais prediletos. Descobri sua obra tardiamente, já na faculdade de Comunicação Social, por meio de um professor de Estética e Cultura de Massa que orientou a turma para que lesse a biografia que o Ruy Castro havia escrito. Depois que devorei O Anjo Pornográfico, fiquei fascinado e sorvi praticamente tudo que caía nas minhas mãos sobre o grande dramaturgo: as crônicas de futebol, os contos de A Vida Como Ela É e A Dama do Lotação, os romances ainda sob pseudônimos e os mais populares como O Casamento e Engraçadinha e as centenas de crônicas - A Cabra Vadia e O Remador de Ben-Hur foram por muito tempo, meus livros de cabeceira.

Quando li as peças teatrais, aí que pirei mesmo. E é surpreendente imaginar que as seis primeiras peças, com temas tão complexos e cheios de tabus (A Mulher Sem Pecado, Vestido de Noiva, Álbum de Família, Anjo Negro, Senhora dos Afogados e Doroteia) tenham sido escritas antes de 1950. Se incomodam até hoje, imagina naquela época.

Coube a Nelson Rodrigues a inovação estética e a modernização do teatro nacional, trazendo todos os elementos da tragédia grega e adaptando para suas singulares “tragédias cariocas”, que ele soube, mais do que ninguém, retratar através dos tipos impagáveis de diversos personagens. 

Infelizmente, a maioria de sua obra acaba sendo muito rotulada, taxada de obscena, imoral e vulgar. No fundo, ele só estava colocando um grande espelho na cara da sociedade e toda a sua hipocrisia e puritanismo. Por isso incomodava tanta gente.

Sua vida também havia sido palco de tragédias. Seu irmão, Roberto Rodrigues, morreu assassinado na redação do jornal de seu pai, que havia publicado uma matéria sobre um caso de desquite em uma época em que separações eram muito mal-vistas pela sociedade. A mulher, sentindo-se ultrajada com a reportagem que mencionava a traição, invadiu a redação para matar o pai de Nelson, Mario Rodrigues. Como ele não estava no momento, atirou em Roberto. O pai entrou em depressão e morreu também, meses depois, sem ver o julgamento da assassina, que foi absolvida. Nelson tinha mais de uma dezena de irmãos, entre eles, Mario Filho, que organizou o primeiro desfile competitivo das escolas de samba do carnaval do RJ, inventou o termo “Fla-Flu” e, como poucos sabem, dá o nome oficial do Maracanã.

Nelson Rodrigues era um reacionário. Inclusive gostava de se intitular dessa forma. Chegou a apoiar o Regime Militar Brasileiro e elogiar o governo do presidente Medici. Somente no fim de sua vida (antes tarde do que nunca), após sentir na pele após ter seu filho Nelsinho preso e torturado, mudou seu posicionamento e militou pela anistia aos presos políticos. 

Nelson morreu em 1980, ainda com o Brasil sendo governado por um militar, sem ver a democracia, que só viria anos depois. E o que mais me espanta é vislumbrar que, mesmo naquele período obscuro, Nelson conseguiu perpetuar uma obra, sem sombra de dúvidas, de uma qualidade equivalente a um Shakespeare. Peças como Perdoa-me Por Me Traíres, Os Sete Gatinhos, O Beijo no Asfalto, Bonitinha, Mas Ordinária e Toda Nudez Será Castigada, com seus temas como homossexualidade, incesto, traições, falsos religiosos e corrupção ficariam impunes às reações puritanas da sociedade atual? 

Teriam silenciado o anjo pornográfico?

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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