quarta-feira, 31 de julho de 2019

Reencontrando Almodóvar




Já tinha um tempinho que eu não me reencontrava com o cinema de Almodóvar. Ou melhor, com Almodóvar no cinema. Desde Abraços Partidos, dez anos atrás, eu não via um dos meus diretores favoritos na telona. Nem sem explicar bem por quê. Muito provavelmente porque não moro tão perto dos cinemas onde seus filmes costumam passar (o que não é muita desculpa, pois eu morava ainda mais longe no meu ápice de consumo de Almodóvar). A Pele que Habito e Os Amantes Passageiros eu assisti em casa, depois. E Julieta ainda não vi... 

Após algum tempinho em cartaz, temia que Dor e Glória saísse do circuito. Mas consegui ir no último fim de semana garantir esse reencontro. O palco foi o cinema que durante muito tempo era o meu templo dos filmes de arte, o antigo Espaço Unibanco de Cinema, agora Estação NET Rio, em Botafogo. Quantas e quantas vezes não montei meus roteiros com dois, às vezes três filmes num dia só, indo de um lado para o outro pelas ruas do bairro: Espaço Unibanco, Estação Botafogo, Cinemark, Unibanco Arteplex... Algumas vezes, um filme já estava prestes a começar quando o outro terminava e eu precisava, literalmente, correr. Bons e velhos tempos de uma época que parece, definitivamente, que não deve se repetir (saudades carteirinha de estudante e poucos compromissos na vida...).

Mas lá estava eu, levando meu marido Victor pela primeira vez àquele local. Ansioso para apreciar um filme assinado por Pedro Almodóvar, estrelado por Antonio Banderas, Cecilia Roth (que eu amo desde Tudo Sobre Minha Mãe e pude ver sensacional em uma peça ao vivo em Buenos Aires, Una Relaccion Pornografica), Leonardo Sbaraglia (que eu também adorava desde Plata Quemada, meu filme argentino favorito) e Penélope Cruz (que atuando em espanhol é sempre uma maravilha – mas que, quando migra pro inglês, vira uma atriz medíocre), além de grande elenco inspirado. 

O filme é realmente bom, embora longe de estar entre as obras primas do diretor. A história é bastante intimista, fala de descobertas, desejos e dores. Porém, trouxe nostalgia tanto pelo reencontro, quanto pelo local, pelos atores e também pela história em si. A película é evidentemente autobiográfica (com traços de ficção, claro, mas referenciada no próprio Almodóvar). Banderas está sutil e brilhante, tão imerso no diretor-amigo que até o penteado ele copia. E é interessantíssimo conferir como o ator saiu de representação de objeto de desejo de Almodóvar na década de 1980 para viver o próprio cineasta agora. Uma bela evolução e amadurecimento de relação e profissão. 

Almodóvar foi o grande responsável, justamente com Tudo Sobre Minha Mãe (que eu mencionei acima), pela minha mudança de olhar para o cinema. Antes, eu só gostava do circuitão, dos blockbusters. Um dia, fortuitamente, fui assistir àquela que, para mim, é sua obra-prima: a história da mãe que perde seu filho e descobre que o grande sonho dele era conhecer seu pai. Arrisco-me a dizer que o Paulo Henrique que saiu daquela sala de cinema, no antigo Art Plaza, em Niterói, já era diferente do que havia entrado. A partir dali, Almodóvar (assim como Tarantino) passou a impactar os meus gostos culturais, inclusive a impactar a minha escrita. 

Em tempos de Vingadores, live actions, Star Wars e outros arrasa-quarteirões (também muito bons, claro), reencontrar Pedro Almodóvar foi uma bela pedida para sair da rotina. Ou, quem sabe, voltar a velhos hábitos.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Um comentário:

Alessa Bernacchi disse...

Adorei! Um olhar sincero e que me deu nostalgia também! Quero assistir! Bj