terça-feira, 23 de julho de 2019

Uma Versão Pós-Moderna (e Brasileira) da Câmara de Gás Nazista





A coluna de hoje é, talvez para mim, uma das mais dolorosas que escrevi, mas me motiva pela necessidade iminente de um grito de clamor. Esse texto, grande, poderia ser uma continuação, ou uma constatação de um outro que escrevi às vésperas das eleições de outubro de 2018 (Vivendo à Sombra de um Holocausto Tupiniquim, de 11/09/2018). E antes que eu escreva sobre o Brasil dos anos 2019, queria contar uma historinha real, aos que pouco procuram se informar...

Ao longo da década de 1920, Adolf Hitler era pouco mais do que um ex-militar bizarro de baixo escalão que poucas pessoas levavam a sério. Ele era conhecido principalmente por seus discursos contra minorias, políticos de esquerda, pacifistas, feministas, gays, elites progressistas, imigrantes, a mídia e a Liga das Nações, precursora das Nações Unidas. Em 1932, porém, 37% dos eleitores alemães votaram no partido de Hitler, a nova força política dominante no país. Em janeiro de 1933, ele tornou-se chefe de governo. Mas por que tantos alemães instruídos votaram em um patético sem história política e que levou o país a ser lembrado como responsável por um dos maiores crimes contra a humanidade?

Em primeiro lugar, os alemães tinham perdido a fé no sistema político da época. Muitos sentiam raiva das elites tradicionais, cujas políticas tinham envolvimento em inúmeros escândalos de corrupção. Buscava-se um novo rosto. Um anti-político promoveria mudanças de verdade. Muitos dos eleitores de Hitler ficaram incomodados com seu radicalismo, mas os partidos estabelecidos não pareciam oferecer boas alternativas.

Hitler sabia como usar a mídia para seus propósitos. Contrastando o discurso burocrático da maioria dos outros políticos, ele usava um linguajar simples, espalhava notícias falsas e os jornais adoravam sugerir que muito do que ele dizia era absurdo. Hitler era politicamente incorreto de propósito, o que o tornava mais autêntico aos olhos dos eleitores. Cada discurso era um espetáculo. Diferentemente dos outros políticos, ele era recebido com aplausos de pé onde quer que fosse, empolgando as multidões. 

Muitos alemães acreditavam que seu país sofria com uma crise moral, e Hitler prometeu uma restauração. Pessoas religiosas, sobretudo, ficaram horrorizadas com a arte moderna e os costumes culturais progressistas que surgiram por volta de 1920, época em que as mulheres se tornavam cada vez mais independentes e a comunidade LGBT em Berlim começava a ganhar visibilidade. Os conservadores sonhavam com restabelecer a antiga ordem. Os conselheiros de Hitler eram todos homens heterossexuais brancos. As mulheres, ele argumentou, deveriam se limitar a administrar a casa e ter filhos. 

Apesar de Hitler fazer declarações ultrajantes – como a de que judeus e gays deveriam ser mortos -, muitos pensavam que ele só queria chocar as pessoas. Muitos alemães que tinham amigos gays ou judeus votaram em Hitler, confiantes de que ele nunca implementaria suas promessas e que elas jamais teriam força para atingir aos seus próximos. Simplista, inexperiente e muitas vezes tão esdrúxulo, que até mesmo seus concorrentes riam dele, Hitler poderia ser controlado por conselheiros mais experientes, ou ele logo deixaria a política. 

Hitler ofereceu soluções simplistas que, à primeira vista, faziam sentido para todos. O problema do crime, argumentava, poderia ser resolvido aplicando a pena de morte com mais frequência e aumentando as sentenças de prisão. Problemas econômicos, segundo ele, eram causados por atores externos e conspiradores comunistas. Os judeus - que representavam menos de 1% da população total - eram o bode expiatório favorito. Os alemães "verdadeiros" não deviam se culpar por nada. Tudo foi embalado em slogans fáceis de lembrar: "Alemanha acima de tudo", "Renascimento da Alemanha", "Um povo, uma nação, um líder".

As elites logo aderiram a Hitler porque ele prometeu - e implementou - um atraente regime clientelista, que beneficiava grupos de interesses especiais. Os industriais ganharam contratos suculentos, que os fizeram ignorar as tendências fascistas de Hitler.

Doze anos depois, com seis milhões de judeus exterminados e mais de 50 milhões de pessoas mortas na Segunda Guerra Mundial, muitos alemães que votaram em Hitler disseram a si mesmos que não tinham ideia de que ele traria tanta miséria ao mundo. De fato, uma análise mais objetiva mostra que, justamente quando era mais necessário defender a democracia, os alemães caíram na tentação fácil de um demagogo patético que fornecia uma falsa sensação de segurança e muito poucas propostas concretas de como lidar com os problemas da Alemanha em 1932. Diferentemente do que se ouve hoje em dia, Hitler não era um gênio. Não passava de um charlatão oportunista que identificou e explorou uma profunda insegurança na sociedade alemã.

Hitler não chegou ao poder porque todos os alemães eram nazistas ou anti-semitas, mas porque muitas pessoas razoáveis fizeram vista grossa ou, de fato, preferiram acreditar naquele “salvador” a enxergar suas reais intenções. O mal se estabeleceu na vida cotidiana porque as pessoas eram incapazes ou sem vontade de reconhecê-lo ou denunciá-lo. Antes de muitos perceberem o que a maquinaria fascista do partido governista estava fazendo, ele já não podia mais ser contido. Era tarde demais.

Você reconhece algo em comum deste texto no Brasil de hoje? Você se reconhece como personagem deste texto?

Pois é, no decorrer das últimas três semanas, o governo federal, por meio do Ministério da Saúde, suspendeu os contratos com sete laboratórios públicos nacionais que produzem 19 medicamentos distribuídos gratuitamente pelo SUS. Segundo as associações que representam os laboratórios públicos existe um risco real de desabastecimento e calcula-se que mais de 30 milhões de pacientes que dependem destes remédios tenham seus tratamentos prejudicados. Alguns dos laboratórios que integram a lista de fornecedores públicos nacionais tiveram a suspensão de projetos de Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs), nos quais são fabricados medicamentos para pacientes que fazem tratamento de câncer, diabetes e transplantados e que são distribuídos gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Mas esse é apenas o começo...

Bolsonaro nunca escondeu uma visão preconceituosa sobre pessoas vivendo com HIV. Em entrevista ao programa Custe o Que Custar (CQC), em 2010, Bolsonaro declarou abertamente que a infecção é problema de quem vive com a doença. “A pessoa não pode ficar aí na vida mundana e depois querer cobrar do poder público um tratamento que é caro nessa área aí. Se não se cuidou, o problema é dele”, afirmou. A perseguição a homossexuais, nordestinos e todas as minorias, nunca foi escondida de seu discurso, pelo contrário. Ele sempre fez questão de mostrar seu desprezo por todos aqueles que ele considera sub-humanidade. 

Esse texto já encontra-se deveras extenso, pois quis contar a história da Alemanha nazista e todo o horror que a sociedade corroborou para acontecer. As atrocidades desse governo e de sua base aliada não são desconhecidas da população brasileira. As pessoas sabem, e sabem bem onde ele quer chegar e caminham junto para que se chegue lá. 

Bolsonaro, assim como Hitler, não só divulgou abertamente as ações do seu pretenso governo, como tem conquistado amplo apoio popular para colocá-las em prática. Na verdade, sua base aliada mais poderosa não é o governo, mas o povo. E esse mesmo povo, que aprova as políticas de reforma que desmontam o acesso da minoria a direitos, está contribuindo agora para sucatear (ainda mais) o Sistema Público de Saúde e conduzindo lentamente os outros cidadãos à um novo genocídio, que certamente ficará marcado na história mundial. 

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Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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