terça-feira, 13 de agosto de 2019

A Cultura Brasileira Agoniza





A frase dita por Wagner Moura resume tudo: 
"A arte é sempre um ambiente que te faz pensar. E é por isso que agora, no Brasil, há uma grande campanha contra a arte e a cultura. Contra o pensamento crítico, contra os livros. E se você estudar a história dos governos fascistas pelo mundo, verá que esses são os primeiros sinais, que isso é o vento que antecede a tempestade." 
Só com esse parágrafo já bastaria a leitura reflexiva da coluna de hoje. 

No último fim de semana, assisti a dois espetáculos que me fizeram sair dos teatros com a sensação de um seco soco no estômago, daqueles que te deixam com uma dor na alma. Estrelado por Camila Pitanga e a Companhia Brasileira de Teatro, a peça Porque Não Vivemos, dirigida por Márcio Abreu e inspirada na obra de Tchecov, o clássico ganha ares contemporâneos com cenas que muito nos lembram a nossa realidade. O segundo, um monólogo conduzido por Gregório Duvivier, Sísifo, escrito por ele e Vinícius Calderoni, que também dirige o espetáculo, fala sobre temas atuais com boa dose de humor, porém doses bem maiores de reflexão.

E as reflexões que permeiam meu dia-a-dia e que só reforçam a cada questão crítica e minimamente prudente de raciocínio em que me proponho a envolver, me faz ter cada vez mais convicção de que o governo de Jair Bolsonaro veio mesmo para exterminar a Cultura e o senhor presidente faz questão de deixar claro a cada pronunciamento, atos e medidas anunciadas. Cercado e adulado por personalidades do meio artístico, alguns de peso e outras de baixa densidade, como Ana Hickmann, Regina Duarte, Lobão, Alexandre Frota (oi?) entre outros, não é de hoje que o presidente assume atitude persecutória contra o setor, seus fazedores, a arte e artistas. O que me faz questionar o tempo todo é: o que essas pessoas, ditas artistas, apoiam em verdade?

Seu maior chamariz é usar como pretexto o corte de despesas para investir em “áreas prioritárias” (ainda não vi nenhum investimento em nada, só cortes de direitos adquiridos). Como afirma o ex-ministro Juca Ferreira, o argumento de que está retirando recursos das artes e da cultura para aplicá-lo em algo mais importante é falacioso. O ataque se dá em todas as áreas, em todos os condutores que regam e alimentam o corpo da Cultura: Lei Rouanet, Petrobrás Cultural, Caixa Econômica Federal, SESC etc. 

Assim que tomou posse, Bolsonaro transformou o ministério da Cultura em secretaria, cumprindo com isto uma velha promessa de campanha. A pasta foi anexada ao Ministério da Cidadania, sob o comando de Osmar Terra, ex-ministro do Desenvolvimento Social durante o governo de Michel Temer. Sobre o fato, o cantor e compositor Chico Buarque fez um comentário que traduz o desalento do meio diante do fato: 
"Só posso dizer o seguinte: em vista da qualidade dos ministros deste Governo, acho que é preferível que a cultura não tenha ministério."
É dito e sabido que o orçamento do MinC sempre foi um dos mais baixos da Esplanada. Em 2017, com Michel Temer, teve uma execução de R$ 550 milhões. Somados custeio e folha de pagamento, chega a, no máximo, R$ 2 bilhões. Para quem não sabe, menos de 1% do orçamento geral da gestão é direcionado às políticas culturais. Com a transformação do ministério em secretaria e as recorrentes críticas e perseguições de Bolsonaro ao setor, o orçamento deverá sofrer um corte recorde. Somado aos cortes já efetuados e/ou em andamento nas estatais e leis de incentivo, a Cultura deverá entrar brevemente na UTI, com o fim de projetos teatrais, musicais, filmes, balés, edições de livros etc.

Era praticamente unanimidade no setor da Cultura a necessidade de ajuste na Lei Rouanet. O governo que chega, no entanto, deixa claro que veio para dizimar a lei, responsável por uma grande injeção de recursos públicos em projetos culturais. O próprio Bolsonaro anunciou, em entrevista, detalhes da auditoria que sofrerá a Lei, alegando que o seu teto cairá para R$ 1 milhão. O presidente não deixou claro, na entrevista, se o teto de R$ 1 milhão era por projeto ou por proponente, mas rumores no mercado cultural diziam que esse valor seria para cada projeto. De qualquer maneira, esta redução drástica do teto inviabilizaria o uso da lei para projetos de grande porte como, por exemplo, a reconstrução do Museu Nacional.

O presidente informou, pelo Twitter – sua tradicional e medíocre forma de comunicar-se de maneira desastrosa – que os patrocínios concedidos pela Petrobras estão sendo revistos. O Programa Petrobras Cultural será amplamente revisto e vai priorizar a educação infantil e a Orquestra Petrobras. Outros setores como teatro, cinema e música deverão sofrer grande impacto com as novas medidas. A despeito da Petrobrás, a Caixa Econômica Federal é mais uma das estatais que vai passar por reestruturação de apoios culturais, como informou Bolsonaro. Por conta disto, a estatal já anunciou o fim do patrocínio ao Cine Belas Artes, de São Paulo. 

O aparelhamento da Cultura tem se dado em vários níveis e de forma bastante tendenciosa. Um dos exemplos foi a nomeação de Pedro Henrique Peixoto para a Secretaria do Audiovisual, órgão que administra as principais ações de fomento do cinema brasileiro. Você sabia que Peixoto é o autor da biografia do deputado bolsonarista Alexandre Frota? Biografia esta que eu mesmo li e atesto que coloca qualquer produção de Bruna Surfistinha – obra duramente criticada pelo presidente – no chinelo.

Um dos grandes prejuízos que a Cultura sofre é com relação à forma preconceituosa e persecutória que o governo Bolsonaro trata o setor. E assim como eu iniciei meu texto com uma fala do ator e cineasta Wagner Moura, gostaria de concluir com alguns questionamentos do mesmo artista:
"Vocês acham que Bolsonaro já leu um livro? Honestamente: que já foi a um teatro? Não! Isso não tem importância para essas pessoas, e elas não querem que essas narrativas sejam ditas."
E porque não querem que sejam ditas ou discutidas? Porque um povo sem saber, sem cultura, sem informação, limita-se a acreditar numa campanha pífia pautada em um “kit gay”, que sequer conhecem a origem e sabem do que se trata. As pessoas que preferem ter um homem como Olavo de Carvalho como pensador, realmente não merecem estar num país que seja defensor de cultura. Merecem, sim, agonizar o seu saber e seu conhecimento em prol de uma ignorância sofrível e sofrida.

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Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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