terça-feira, 27 de agosto de 2019

A Nova Maria de Fátima do "Pedaço"





Quem me conhece, sabe o quanto sou noveleiro. Sou daqueles que vê os capítulos das telenovelas da tarde no Canal Viva e, à noite, sou capaz de assistir novamente, inclusive repetindo algumas falas, tamanha minha paixão por esse tipo de programa. Mas o que me inspira hoje não é meu vício pelas novelas, mas falar de um dos conflitos do atual folhetim das 21h, A Dona do Pedaço

Com alguns erros de continuidade, equívocos na construção das personagens (quem não lembra do tom exagerado da Juliana Paes no início da novela?) e também situações óbvias que, em tese, não prenderiam o espectador, a novela, a meu ver, é doce como sua abertura. A receita de bolo de Walcyr Carrasco, literalmente falando, reúne os principais motes de uma boa novela tradicional: uma protagonista lutadora e, às vezes, até ingênua; vilões que a todo custo querem se dar bem – preferencialmente prejudicando a personagem principal;  e núcleos paralelos que ajudam na narrativa da história. Repetitivo? Sim, muito! Mas entreter o público com uma fórmula já batida é mérito para poucos. E, não há como negar que, comprovadamente, A Dona do Pedaço vem cumprindo seu papel, principalmente depois de ter herdado o horário desacreditado pelo fiasco de O Sétimo Guardião.

Introdução à parte, quase diariamente discuto em casa sobre a incoerência das atitudes de Josiane, filha da boleira-protagonista Maria da Paz, em armar as piores situações e roubar sua mãe para se tornar um ícone fashion das redes sociais. A pergunta que sempre ouço em casa é “em que lugar do mundo, uma filha rouba a mãe para conseguir seguidores na internet?”

Façamos um paralelo então com uma das vilãs mais icônicas da televisão brasileira e de uma das novelas de maior sucesso de todos os tempos: Maria de Fátima, de Vale Tudo, novela de Gilberto Braga, de 1988. Como queria ser modelo, Maria de Fátima simplesmente vendeu a casa da mãe, com a mulher morando ainda dentro do imóvel, e partiu para o Rio de Janeiro em busca de sua vida de fama e celebridade. Com uma mão na frente e outra atrás, Raquel também vai para a capital carioca e passa a ganhar a vida vendendo sanduíches bem transados na praia. No decorrer da trama, ela vai subindo na vida e tem alguns embates com a filha mal caráter, mas a todo tempo dando traços de fraqueza por acreditar numa possível redenção da megera e por seu sentimento de mãe falar mais alto. 

Em A Dona do Pedaço, resguardada a época contemporânea, onde as modelos deram lugar para as influencers digitais, a trama está apenas adaptada. Josiane, ou Jô Sobral, como gosta de ser chamada por achar sua origem e seu nome cafonas, é uma garota sem escrúpulos e nenhum sinal de ressentimento, uma típica sociopata com dose extra de egocentrismo. Filha de Maria da Paz, uma rica empresária que ganhou fortuna vendendo bolos na rua até montar sua cadeia de confeitarias, Jô representa o brasileiro sem ética nem empatia, capaz de passar por cima de tudo e todos para ficar rico, famoso e poderoso. Parece uma versão exagerada pela dramaturgia, mas basta conferir o noticiário para notar que é mais comum do que se imagina. 

Como dito antes, uma característica marcante da jovem víbora é seu desprezo pela classe social da qual sua mãe veio. Vale Tudo envelheceu em alguns aspectos – personagens usavam máquina de datilografar, enquanto hoje usa-se computadores, utilizavam aparelho de telex e, hoje, e-mails, e as fotografias, em sua maioria, eram divulgadas em jornais e revistas impressos, enquanto atualmente, os registros viralizam por meio da internet e aparelhos celulares –, mas a crítica à sociedade de consumo e na obsessão rasa quase coletiva por fama e fortuna, continuam mais atuais do que nunca na nova trama das 21h. Ambas novelas contrapõem as falhas de caráter de Maria de Fátima e de Josiane a despeito dos valores inegociáveis de Raquel e Maria da Paz, como a honestidade e a compaixão. As filhas representam o Brasil do jeitinho e da insensibilidade com o outro, enquanto as mães simbolizam o cidadão exemplar e o sonho de uma nação justa, onde vencer na vida pelo esforço e honestidade são condições indiscutíveis. 

No mais, a lição que eu tiro disso tudo é que o passar do tempo não regenerou em nada o caráter de muitos seres humanos e que A Dona do Pedaço está muito longe de ser uma novela inverossímil.

Leia Também:
Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
FacebookTwitter



A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Nenhum comentário: