sexta-feira, 9 de agosto de 2019

A Rua Abbey






Ontem, 8 de agosto, a icônica foto dos Beatles atravessando a faixa de pedestres em Abbey Road fez 50 anos.  O fotógrafo responsável, o escocês Iain MacMillan, jamais poderia imaginar que aquele clique poderia se perpetuar no mundo inteiro: até hoje, milhares de turistas visitam o local, que fica em St. John's Wood (uma parte rica e residencial de Londres) e tentam reproduzir a mesma cena.  Estive lá em março do ano passado e é claro que fiz a mesma coisa, sob um frio de rachar.

Naquela manhã de 1969, fazia muito calor.  Em um período turbulento, os Beatles, que quase já não se falavam direito, estavam finalizando as gravações de um novo álbum ainda sem título e tinham um futuro que já caminhava para a dissolução.  Antes das 11:30, interromperam as gravações e posaram para as lentes de Iain.  Com a ajuda de um policial, que segurou o trânsito, o fotógrafo fez somente seis cliques em frente ao Abbey Road Studios: três indo e três voltando.  John Lennon, irritado, ainda achou que tudo estava demorando demais e antecipou o fim da sessão de fotos alegando que todos precisavam retornar ao estúdio e continuar as gravações.  Tudo não durou nem dez minutos.  E o quinto clique foi o escolhido, pois mostrava todos os quatro sincronizados.  Veja aqui neste link algumas fotos realizadas do backstage naquele dia.

Com o fim da banda, meses depois, começaram as teorias da conspiração em torno da capa do disco.  Muitos vincularam a imagem como uma procissão fúnebre com John de branco à frente, como um padre; Ringo, de preto como um agente funerário; George, de jeans, como um coveiro; e Paul McCartney, descalço, como o defunto.  Os fãs surtaram.  Eles juravam de pés juntos que aquele Paul era um impostor.  Para eles, haviam inúmeras mensagens subliminares registradas que poderiam comprovar isso: além de estar sem sapatos, ele era o único que apresentava um passo descompassado em relação aos demais integrantes.  Também prestaram atenção que Paul segurava um cigarro na mão direita, contrariando o fato de ser canhoto.  E o mais louco é a tal placa do fusquinha branco que aparece na foto:  segundo a conspiração, LMW significaria Linda McCartney Widow (viúva) e o 28IF que o baixista estaria com 28 anos (se) estivesse vivo.  Aliás, a questão de que Paul seria um sósia já vinha se arrastando desde 1967, quando lançaram o magistral Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, e os fãs neuróticos afirmavam categoricamente que Paul estava morto por causa de outras mensagens secretas na imagem daquele disco.

O Abbey Road Studios, antes de se tornar o primeiro e um dos maiores estúdios de gravação do mundo, em 1931, era uma casa de 9 cômodos, construída em 1829.  Mais de 90% de todas as canções dos Beatles foram gravadas lá.  Em 26 de setembro de 1969,  o disco foi lançado, sem o nome da banda e sem o nome do álbum na capa.  Com 17 faixas, contém clássicos como Here comes the sun, Come together, Something, Oh! Darling, Octopus´s garden e The End.  O disco está na lista dos 200 álbuns definitivos do Roack and Roll Hall of Fame.  Os Beatles foram considerados a maior banda de rock de todos os tempos e que mais vendeu na história da música.  Segundo estimativas, mais de 1 bilhão de discos.

Hoje eu fico pensando se aquelas fotos tivessem sido realizadas nos dias de hoje... Certamente teria sido realizada uma transmissão exclusiva e ao vivo por alguma rede mundial, milhões de posts e likes no Instagram, trending topics no Twitter, assessores enlouquecidos fazendo milhões de exigências, gruas por todos os lados, batalhões de fotógrafos e um congestionamento monstruoso.  

O ótimo é inimigo do bom.  Voltaire disse algo semelhante há mais de dois séculos e isso se transformou em um ditado muito popular.  A foto de Abbey Road com os Beatles naquela faixa de pedestres ratifica este exemplo.  As ideias mais simples são as mais geniais.  Quando elaboramos muito, perdem a essência.  Então... que venham mais cinquenta anos! 


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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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