quarta-feira, 7 de agosto de 2019

A Volta de La Casa de Papel: Precisava?





Eu já falei aqui antes o quanto gostei das primeiras duas temporadas (na verdade era uma só, que foi dividida pela Netflix) de La Casa de Papel. A série espanhola se tornou queridinha ao redor do mundo, inclusive (e talvez principalmente) no Brasil e é até hoje a produção de língua não-inglesa mais assistida e bem-sucedida da plataforma. O encerramento da segunda temporada foi bem amarrado, equilibrado entre as dores das perdas e o happy ending que uma trama como tal pedia. 

Por isso, vinha logo a pergunta: havia a necessidade de dar continuidade à história? Definitivamente, não. A Dona Netflix resolveu surfar no sucesso e no apelo que a série ainda preservava mundo afora e resolveu bancar uma nova temporada. Aliás, ao menos duas novas temporadas (já que ao fim da terceira vemos que tudo fica em aberto). Mas já que a história tá lá disponível, o que a gente fez? Foi lá ver. E curtimos? Sim!

Superado o momento não precisava disso, restou nos abrirmos para reencontrar os carismáticos bandidos que roubaram os nossos corações pouco mais de um ano atrás. A história parte de um bom pressuposto: Tóquio (sempre ela) resolve quebrar uma das regras combinadas entre os assaltantes depois que conseguem fugir e deixa Rio sozinho numa ilha do Caribe. Rio, por sua vez, quebra outra regra e isso o faz ser pego pela Polícia. Não demora muito para que todos saibam e se reúnam para tentar um plano para resgatar o amigo detido – que, provavelmente, está passando por sessões de tortura. 

Lembro-me que quando falei aqui de La Casa de Papel antes, mencionando sobre o fetiche do crime perfeito (seja em séries, novelas, livros ou filmes). E também da minha predileção por filmes e pelo audiovisual em geral produzidos na Espanha. A produção bebe de inúmeras fontes, inclusive Almodóvar e Tarantino, meus cineastas favoritos. Ou não seriam Nairóbi e Tóquio personagens clássicas desses dois diretores, respectivamente? Dessa vez, o crime não é tão perfeito (e isso fica claro desde o início), mas é usado como holofote para a situação de Rio. E novos personagens se somam: Palermo, Bogotá, Marselha e as já conhecidas Lisboa (codinome da inspetora Raquel Murrillo) e Estocolmo (de Monica Gaztambide). 

Porém, o dedo da Netflix (antes, a série apenas foi exibida pela plataforma de streaming, sendo realizado por outra produtora, espanhola) trouxe consequências. A essência das duas primeiras temporadas está lá, mas existe uma personagem que destoa da proposta original: a inspetora Alicia. Ela teria tudo para ser uma queridinha minha: brinca com o estereotipo, é debochada, é inescrupulosa e bem construída até. Mas destoa. É diferente de tudo o que vimos antes. E ela me incomoda realmente. Não por ser quem é, mas por estar ali. 

Algumas coisas também foram corrigidas. Por exemplo: embora flertasse com momentos de empoderamento feminino, La Casa de Papel era machista. E dessa vez o empoderamento aparece de forma mais natural – além da presença maior de mulheres, elas demonstram mais valores de feminismo nas suas atitudes, debatendo machismo com um gay, inclusive. 

Eu vi e gostei do que vi, embora reforce que seja desnecessário. E vou ver a quarta temporada, com certeza. Difícil é engolir que, mesmo por valores, mesmo por adrenalina, mesmo por resistência ao sistema, os criminosos mais procurados da Espanha e até mesmo do mundo aceitem voltar para uma situação tão desfavorável, depois de serem milionários e viverem em paraísos. Mas uma certeza eu tenho: torceremos por eles até o fim.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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