sexta-feira, 23 de agosto de 2019

E-não-te-esqueças-de-mim





Tenho um carinho muito grande por esta pequena crônica, publicada originalmente no meu primeiro livro, Troco a bituca por duas jujubas, em 2016. Por mais que possa parecer um cenário onírico ou surreal, tudo o que aconteceu foi real. 

Ontem à noite, peguei sem querer o livro na estante e abri exatamente na página onde está registrado. Senti uma ânsia, uma espécie de aperto e pela manhã recebi uma mensagem que me deixou desnorteado, triste. Não sei se foi premonitório, mas senti a necessidade de colocar ele aqui no Barba Feita, pois muitos dos leitores ainda não o conhecem. 

E, antes de lê-lo, gostariam que compreendessem que ele é um pequeno exemplo para minha compreensão de EMPATIA, que requer observação e a exclusão do egocentrismo para dar espaço ao altruísmo e a nossa capacidade de se colocar no lugar do outro. Boa leitura.

(...) 

De repente, o dia virou noite. As pessoas andavam apressadas para fugir da tempestade que se aproximara no Centro do Rio de Janeiro. Devia ser cinco da tarde, mas parecia sete, por aí. No céu, raios entrecortavam os prédios na Avenida Rio Branco e o vento entortava as pequenas árvores em seus canteiros.

Estava parado nas escadarias em uma das saídas do metrô do Largo da Carioca assistindo à performance do Ademir do Sax, cujo instrumento havia ganho do Jô Soares. Com os olhos fechados, Ademir fazia calmamente seu show, sem notar que o mundo estava prestes a acabar.

Mais à frente, o rapaz prateado e sua capa quase sendo levada pela precipitada ventania, equilibrava-se em cima do seu pequeno caixote. A pequena flor que segurava entre seus dedos já tinha sido despetalada. Mesmo assim, seu torso nu estava imóvel. Sequer respirava.

Na esquina, o simpático casal de velhinhos, que driblava as dificuldades do dia-a-dia com exemplo de amor verdadeiro, continuava alheio à correria dos transeuntes. Ele, com seu boné e sua camisa listrada, tocava sua velha sanfona e ela, ao seu lado, balançava a cabeça ao som da canção, segurando a pequena caixa com algumas moedas. Eu a encarei com compaixão e ela me observou com seu doce olhar resignado. Sem mexer os seus lábios ressecados pelo impiedoso tempo, deu um enorme sorriso que me fez chorar.

Aquele olhar me desnorteou. Continuei andando, mas sem rumo, olhava para trás e esbarrava nas pessoas, pedindo desculpas inconscientemente. E assim fui-me distanciando, até que o casal de velhinhos sumiu de minha vista e o som do sax do Ademir foi ficando cada vez mais baixo.

Atravessara a Nilo Peçanha quando uma pequena pétala azul de miosótis, como uma mensagem não enviada e perdida no meio da tempestade anunciada, caiu na minha mão. Não sei de onde ela veio, nem sei como ela me escolheu.

Simplesmente surgiu no meio daquele breu, cintilou e pousou entre meus dedos. Fechei a mão com cuidado para não amassá-la e apertei o passo.

O catador de papelão buscava um abrigo e arrastava seu carrinho de supermercados com seus inúmeros cães vira-latas a tiracolo. Não estava ali para salvar seu material de trabalho conquistado durante o dia, mas sim, proteger os seus cães, que se assustaram quando um imenso trovão ecoou em todas as dimensões, fazendo tremer o chão e os prédios. O asfalto começava a receber as primeiras e ameaçadoras gotas de chuva, que desabaram sobre nós, segundos depois.

Fomos pegos desprevenidos. Em poucos minutos, as ruas do Centro do Rio estavam completamente alagadas, com água jorrando entre diversos turbilhões. As pessoas, assustadas, se espremiam por baixo das marquises e o engarrafamento tornou-se inevitável. Buzinas, trovões, gritos histéricos de mulheres e o barulho das portas de ferro de lojas se fechando.

Já tinha passado pela Sete de Setembro, Rua do Rosário e Buenos Aires, quando, já encharcado, resolvi atravessar por entre os carros em meio ao caos. O vento era insuportável e por um momento pensei no casal de velhinhos e no rapaz-estátua.

Será que estariam bem?

Olhei para a minha mão ainda fechada e parecia que pequenos feixes de luzes azuis saíam dela. Cerrei ainda mais, tentando protegê-la. Corri. Meus óculos estavam totalmente embaçados pela chuva. Mesmo assim, consegui enxergar um senhor parado do outro lado da rua. Fui em sua direção, acreditando que ele precisava de auxílio para atravessar. Era baixo, com a pele bem alva, com uma bengala na mão, roupas também encharcadas e usava um chapéu de abas, protegendo seu rosto da tempestade.

A cada passo que me aproximava daquele senhor, meu coração disparava. Parei na sua frente e, assim como fiz com a senhorinha que estava ao lado do marido no Largo da Carioca, o encarei. A água da chuva, como cachoeira, caía pelas abas de seu chapéu, mas seu rosto estava completamente seco. Fitei seus olhos, degenerados pela idade e, sem trocarmos uma palavra sequer, sorrimos.

O senhor balbuciou algo incompreensível. Sem conseguir entender o que havia dito, franzi a testa, me aproximei ainda mais dele e ouvi, como um sussurro, um “muito obrigado, meu filho...”.

Ele notou a luz azul que saía de minhas mãos e, meio que consentindo com a cabeça, sorriu com os olhos cansados.

Ainda ficamos, por um longo momento, nos despedindo sem palavras, dando passos para trás. Novamente minhas lágrimas cismavam em correr e me lembrei de uma das cenas finais de Blade Runner, quando Hutger Hauer no meio da tempestade diz “todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva”, soltando a pomba branca que estava em seus braços.

Ao chegar à Avenida Presidente Vargas, quase próximo à Candelária, notei pelo horizonte que a tempestade logo dissiparia.

Olhei para trás e não vi mais aquele senhor. No meio daquele temporal, a expressão e as poucas palavras daquele homem nunca saíram da minha cabeça, assim como os gestos do rapaz-estátua, do casal de velhinhos, do cuidado do catador de papelão e seus cães e o som do sax do Ademir, no Largo da Carioca.

Com cuidado e com certo receio, delicadamente abri minha mão e, no meio da tempestade, a cintilante pétala azul de miosótis trilhou o seu novo caminho.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

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