sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Eles Querem Que os Pobres se Explodam!





Tem muita gente que acredita que os programas humorísticos atuais pegam pesado com os políticos e algumas instituições. Eu até concordo que um jovem diga isso, pois não possui parâmetros para fazer esse julgamento. Aos demais, credito a falta de memória, pois as críticas sociais sempre estiveram presentes e praticamente todos os ex-presidentes da República já foram criticados, imitados e achincalhados em programas como o Casseta & Planeta ou através de humoristas como Gustavo Mendes, que explodiu com a sua versão desbocada de Dilma Rousseff.

Mas como estava dizendo, isso não é de hoje. Chico Anysio sempre foi o mestre da zoação e eu adorava as centenas de seus tipos caricatos. Em meados dos anos 1980, um deles causou muitas reações no meio evangélico: Tim Tones, o pastor racista que comandava um programa de tevê e enriqueceu a família graças às contribuições dos fiéis, era um dos meus favoritos. Inspirado no fanático religioso Jim Jones, que organizou um suicídio em massa na Guiana, o personagem satirizava a cegueira das pessoas influenciadas pelo charlatanismo de curas milagrosas que não se concretizavam e, ao final dos cultos, sempre repetia o bordão vamos passar a sacolinha!, ajudado pelos seus sete filhos, crianças com nomes americanizados.

Também tinha o hilário Bento Carneiro, o vampiro brasileiro com complexo de vira-latas; o espalhafatoso Haroldo, personal-trainer homossexual que dizia ter sido curado e se tornado hétero, mas que no fim não resistia aos bofes que contracenavam com ele; os machistas e alcóolatras Tavares e Nazareno; o símbolo sexual e completamente desinformado Alberto Roberto; e a gaúcha Salomé, amiga e confidente do ex-presidente João Figueiredo que sempre aparecia telefonando para ele, satirizando a ditadura militar com a exclamação barbaridade! e inventando apelidos para ministros e outras figuras do governo...

O desprezo pelo politicamente correto, na verdade, era uma forma de colocar o dedo dentro da ferida da sociedade. E Chico fazia isso muito bem. Um dos outros claros exemplos era mostrado através do político corrupto Justo Veríssimo, que recebia propinas de empresários e detestava os seus eleitores, que justamente tinham o elegido. Nas esquetes, ele sempre dava um jeito, com o auxílio de seus assessores, de barrar a entrada da população, que exigia melhores condições na saúde e educação. Quero que pobre se exploda, ele dizia.

Este personagem, inclusive, inspirou anos depois a atriz Katiuscia Canoro que criou a personagem Umbelina, uma assistente social que ficou marcada por bordões como eu amo os pobres! e vocês são gente quase como a gente. Obviamente, a atriz recebeu uma enxurrada de críticas, principalmente vindo dos órgãos de classe, que se incomodaram com a forma irônica com que ela tratava os moradores que reivindicavam melhorias sociais. Em uma entrevista, Katiuscia disse que a ideia da personagem era exatamente refletir que os problemas sociais são numerosos e que as pessoas mais humildes, de fato não conseguem lutar pelos seus direitos. 

O fato é que o humor sempre abriu questionamentos. Em tempos sombrios, esperamos que apareçam cada vez mais Adnets, Porchats e Duviviers para abrirem os nossos olhos. Quem chia é quem verdadeiramente não tem nenhum senso de humor e utiliza a barreira da hipocrisia para tapar o sol com a peneira. 

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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