sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Escarra Nessa Boca Que Te Beija!





Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua quimera
Somente a Ingratidão – esta pantera
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro.
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa ainda pena a tua chaga
Apedreja essa mão vil que te afaga
Escarra nessa boca que te beija!
(Versos Íntimos)

Sintetizado em decassílabos e rimas regulares ao estilo francês, este soneto foi escrito em 1901 pelo poeta paraibano Augusto dos Anjos (1884-1914), quando o mundo vivia um período turbulento. O pessimismo extremo era refletido nas artes e, em especial na literatura, com o início do movimento romântico do mal-do-século capitaneado pelo inglês Lord Byron, com as lamúrias, tédio, infelicidade, desgosto e melancolia presente nas obras.

No Brasil, o movimento teve outro contexto, com contornos trágicos, quando os artistas encontravam na depressão profunda e na morte as soluções para seus problemas existenciais. Os artistas da época se enxergavam como desajustados, devido ao constante conflito social que enfrentavam. O isolamento os faziam cair no sofrimento, inclusive resultando em males físicos, como a tuberculose, que acabou levando os dois maiores ícones do movimento no Brasil: Casimiro de Abreu, aos 21 anos, e Álvares de Azevedo, aos 20. Mas, no caso de Augusto dos Anjos – que também morreu jovem (aos 30 anos), de pneumonia – sua obra já antevia o que viria ser o grande mal-do-século 21: a hipocrisia e a intolerância. 

Augusto dos Anjos foi um poeta transitório. Não se encaixava nos padrões do simbolismo ou do romantismo, tampouco era considerado um parnasiano, apesar de seus diversos sonetos. Sua obra, abarrotada do vocabulário e termos técnicos das ciências biológicas e medicina, tinha aspectos linguísticos do realismo/naturalismo e já trazia elementos do que viria a ser o pré-modernismo. Em 1912, quando tinha 28 anos, lançou seu único livro, Eu, de nome simples e que até hoje surpreende pela sua singularidade. Versos Íntimos, que introduz este texto, talvez seja o mais popular, juntamente com Psicologia de um Vencido, dois exemplos que os professores da época do ensino médio utilizavam para elucidar o movimento e a obra do autor. 

Versos Íntimos, considerado um dos 100 melhores poemas brasileiros do século XX, é uma real expressão pessimista do cenário descontrolado e cruel que vivemos atualmente, com o total desgaste dos relacionamentos sociais/interpessoais. Assim como apresentado nos versos do soneto, ninguém mais se importa com os sonhos destruídos. Pessoas se tornaram ingratas, sem compaixão ou escrúpulos, e a violência é percebida como inevitável. No contexto, o Homem se adapta ao novo mundo de selvageria. Assustadoramente realista.

Com um país completamente dividido nas suas ideologias, todos os dias temos a missão de carregar a pedra até o alto da montanha e fazê-la rolar, para, no dia seguinte, iniciarmos novamente o árduo trabalho, na cíclica analogia ao mito de Sísifo. Estamos presos em uma competição de cabo de guerra onde as mãos sangram em ambas as partes, mas ninguém entrega o jogo. Nesta dualidade sem fim, quem você esperava ver ao seu lado, muitas vezes está no campo adversário, te humilhando e colocando para baixo. Acredite... em um determinado momento, essa falta de consideração vai bater à sua porta. Aquele que hoje estende a mão, é o mesmo que vai pressionar sua cabeça para que você se afogue. Cedo ou tarde. 

Em um mundo completamente povoado pelo inconsciente coletivo psicotizado, não se assuste se um de seus melhores amigos resolver, abrupta e impiedosamente, cortar o que ele julga como mal pela raiz. Esta decisão é a maneira mais simplista, já que o saber ouvir e ser empático (palavra que muitos usam mas não sabem o real significado) não faz parte de seu mundo de objetos antropomórficos que falam e se comportam como seres humanos. No país das maravilhas, teremos nossas cabeças cortadas pela Rainha de Copas e nossas bocas, escarradas pela intolerância intrínseca de suas verdadeiras faces.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

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