quarta-feira, 28 de agosto de 2019

O Constrangimento Nosso de Cada Dia




Dia desses, passei por uma situação bem corriqueira, daquelas pautadas pela lógica heterossexual do mundo, que me fez refletir. Estávamos eu e Victor, meu companheiro, numa padaria. Ele foi comprar água e a atendente falou de uma promoção de mate e bebidas alcoólicas no dia. E sugeriu: 

- Leva pra casa pra tomar mais tarde, leva pra esposa, pra namorada... 

Ele riu, pensou e respondeu: 

- O namorado, no caso, é ele. – e apontou pra mim. 

Ela ficou ligeiramente desconcertada, mas brincou com a situação. E saímos na sequência. 

Fomos conversando sobre o ocorrido. Quantas vezes não passamos por situações exatamente como essas? E em quantas delas não nos calamos?

Muitas vezes, vemos que as pessoas não têm qualquer intenção em serem preconceituosas quando fazem comentários sobre homens necessariamente terem esposas, namoradas e/ou filhos. E mulheres terem maridos, namorados e/ou filhos. Simplesmente seguem o padrão que nos foi imposto, principalmente nas civilizações ocidentais. 

Corrigir essas pessoas pode parecer gerar uma reação ainda mais preconceituosa ou apenas um constrangimento. Admito que penso sempre duas vezes se vale a pena falar algo nesses momentos: outro dia também, na academia, um cara veio comentar comigo de uma “gostosa” que estava fazendo agachamento num aparelho. E ainda emendou: “e tem gente que não gosta, como é que pode?”. Eu fiz cara de pouca paciência e não dei continuidade ao assunto... Mas acho que errei. 

Por mais que seja apenas um constrangimento, temos que falar. Ainda que por uma questão educativa. Para que ninguém parta do pressuposto de que todos são heteros. Ou que a heterossexualidade é a via normal. Para que mesmo que o rapaz não seja afeminado cheio de trejeitos supostamente afetados ele possa ser compreendido como alguém que pode ter uma namorada ou um namorado. 

Isso é tão arraigado que nós não vemos espontaneamente uma situação em que uma atendente chegue para um homem e diga para ele levar a bebida para “a sua namorada ou namorado”. E, provavelmente, se ela falar, vai receber uma resposta atravessada se o homem em questão for hetero ou um gay mal resolvido, perguntando se “está me estranhando”. Afinal, a masculinidade é algo muito frágil para ter um leque de opções... 

Pode ser um trabalho de formiguinha, mas falar é necessário. Não devemos diminuir o nosso constrangimento em sermos colocados num molde que não é o nosso para evitar o constrangimento de quem só reproduz uma opressão social, ainda que não intencionalmente.

Leia Também:
Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
FacebookInstagram


A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Nenhum comentário: