sexta-feira, 16 de agosto de 2019

O Peso





Nós, seres humanos, somos construídos a partir de significados que vão sendo apropriados durante a vida. Somente através das interações é que construímos o conhecimento e nos integramos ao meio em que vivemos. Ou seja, somos constituídos do meio cultural em que nascemos. Conflitos, traumas e inquietações fazem parte de nossa natureza, mas tenho observado, cada vez com mais frequência, que indivíduos estão mais ansiosos, depressivos e estressados. E isso tem ligação direta com o meio social. Sim, estamos rodeados de pessoas com distúrbios neuróticos. E de vez em sempre eu volto com esse assunto às minhas sessões de análise: o mundo anda psicotizado demais e não estamos nos dando conta de que precisamos, cada vez mais, de auxílio terapêutico.

Quando era mais jovem, acreditava que quem fazia análise era um fraco. E que eu poderia resolver meus conflitos internos na solidão do meu quarto, com uma boa noite de sono. Quando se falava em psiquiatria então, vinculava àqueles cenários de hospícios, choques elétricos e pessoas babando na gravata. Até que um dia tive síndrome do pânico. Já estava apresentando alguns pequenos sintomas, medos que considerava bobos, cansaço mental e em uma noite, repentinamente, achei que estava tendo um ataque cardíaco e simplesmente travei. Lembrar disso, mesmo depois de tanto tempo, ainda me assusta, mas foi assim... praticamente do nada, me vi em um abismo. Ainda tive uma certa resistência para buscar auxílio, mas quando vi que estava entrando em um labirinto escuro, gritei.

Não precisei fazer um acompanhamento com um psiquiatra, mas há três anos faço terapia psicológica. E sempre procuro incentivar meus amigos para que procurem fazer também, pois infelizmente temos vivido dias difíceis. Já temos problemas em excesso que são agravados por muitos fatores externos – o medo da violência das grandes metrópoles, a instabilidade econômica, a crise política, o medo do desemprego, a incerteza sobre o futuro... E isso tudo favorece um grande desequilíbrio mental que resulta em angústia e, consequentemente, em distúrbios neuróticos.

Muitos ainda tem vergonha e receio de discutir esses problemas, tão comuns. Quando nos deparamos com uma pessoa com neuroses, precisamos compreender que elas são frutos de tentativas improdutivas de suportar conflitos e traumas inconscientes que o empurram para um isolamento psíquico. O importante é discutir o assunto e oferecer sempre ajuda.

Precisamos lembrar que cada caso é um caso. O mesmo piano carregado nas costas pode ter pesos diferentes para cada indivíduo. Por isso, nunca devemos achar que o problema do outro pode parecer menor ou maior do que o nosso. 

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

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