sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Bacurau: Se For, Vá em Paz




Se você ainda não teve a oportunidade de assistir Bacurau nos cinemas, mas ainda pretende, sugiro que pare imediatamente de ler o texto da coluna de hoje. É sério. Se ainda não viu, aproveito para insistir que pare o que esteja fazendo e efetivamente vá. E não leia este texto até se levantar da poltrona do cinema. Digo isso porque é muito importante que você seja impactado sem saber absolutamente nada sobre o filme. Esse é o grande barato da película.

Então vamos lá... Ultima chance que estou dando, hein... 

Antes de tudo, gostaria de tecer um comentário: o cinema sempre refletiu, ao longo da história, os principais medos sociais. Lembro que lá nos meus primórdios acadêmicos, me debrucei sobre séculos do cinema, categorizado por décadas distintas, para um TCC. Nele, procurei compreender e sintetizar o que afetava psicologicamente a sociedade. Um dos primeiros filmes analisados foi O Gabinete do Dr. Caligari, de Robert Wiene, um filme mudo de 1920 e que é considerado a grande obra do movimento expressionista alemão. O filme é uma grande metáfora à sociedade atormentada pelo totalitarismo que a Alemanha vivia antes mesmo da época do nazismo. A pesquisa seguiu esse mote: Freaks (1932) abordava o preconceito e o medo do diferente; Vampiros de Almas (1956) refletia a insegurança americana de se render ao comunismo e ao macarthismo; A Noite dos Mortos-Vivos (1968), de George Romero, tratava sobre ideias retrógradas que insistiam em continuar ativas; O Exorcista (1974) era uma alegoria sobre o choque de gerações, The Day After – O Dia Seguinte (1983) e Godzilla (1954) retratavam a tensão mundial em torno das ameaças nuclear e biológica.

Outros filmes mais recentes também usavam elementos alegóricos para explicar os medos sociais. O diretor Jordan Peele usou e abusou do tema racismo nos ótimos Corra! (2017) e Nós (2019). Darren Aronofsky criou o polêmico Mãe! (2017), que tinha conceito semelhante a O Bebê de Rosemary (1968): a incompreensão social de forma globalizada.

Bacurau já nasce clássico pois segue o mesmo conceito desses filmes já citados. É uma obra sobre resistência. Se tivesse sido lançado há 10 anos, talvez não surtisse um efeito tão devastador. Por isso, a urgência. É como se Glauber Rocha encontrasse Tarantino e, juntos, resolvessem fazer um filme sobre o western, misturando ficção científica, paranoia e política.

A essa altura, eu tenho certeza de que você, que ainda não viu o filme, está ainda lendo este texto. E tento escrever, ainda empolgado, mas de uma forma que não estrague a experiência. Bacurau é um filme que tem esse poder de dar sentido às coisas ao nosso redor. Por isso, a certa histeria e catarse em torno dele. Reflete um sertão árido num futuro próximo, um Brasil dividido, uma provocação regional entre cariocas, paulistas e sulistas, um plano de extermínio, políticos corruptos, milicianos, abuso de autoridade, asfixia, terra amaldiçoada, realidade alternativa e bestas feras. Pensou em Phillip K. Dick? Sim! Total!!!

E aí lembro novamente de Glauber Rocha. Terra em Transe. Psicotrópicos. Você vai entender o que estou dizendo quando assistir. Pessoas acordando de seu estado letárgico em um efeito contrário, devastador (e necessário). O naturalismo do nu, do sexo, do não binarismo e da tecnologia ao alcance de todos. Satélites apagam informações à mando de autoridades superiores, um Big Brother acompanha a população, o bando de clássicos cangaceiros a la Lampião é resgatado. Lia de Itamaracá, pílulas Matrix, transições wipe, Star Wars, Paulo Freire, Os Vingadores e Jogos Mortais. A utopia da água no sertão brotando de caixões ainda nos fazem refletir: “quantos ainda precisam morrer?"

Ao final da projeção, ainda com os olhos acostumados com a escuridão, a primeira coisa que me vêm à cabeça é saber onde consigo o comprimido que todos tomaram no filme.

Precisamos acordar.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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