terça-feira, 3 de setembro de 2019

Na Paulicéia Desvairada Lá Vou Eu...





...Na Paulicéia desvairada, lá vou eu
Fazer poemas e cantar minha emoção...

Esse era um dos versos da canção, que alçou a escola de samba Estácio de Sá ao campeonato do carnaval carioca em 1992. E era ele que povoava meu pensamento, de forma incessante, ao abrir os meus olhos em mais uma aurora do último fim de semana em São Paulo. Era sábado de manhã e, mais uma vez, estava ali chegando na minha segunda casa. Naquela cidade que, por muitos anos, alimentei a famosa rixa entre cariocas e paulistas, trazendo para o coração a ojeriza pelo povo do estado vizinho. 

Mas a maturidade veio e, com ela, um olhar diferente para uma das cidades – senão a mais – cultas do nosso país. E nestes paralelos loucos que faço na minha cabeça para construir meus textos, juntei samba, literatura e devaneio (ou desvario, para ser mais fiel às minhas inspirações). Mas o que essa salada insana de informações tem a ver com o meu texto de hoje?

Lançado em 1922 (exatos 70 anos do campeonato na escola de samba), Pauliceia Desvairada é o primeiro livro modernista brasileiro, composto por 22 poemas do autor Mário de Andrade e tem como pano de fundo uma cidade em processo de modernização e urbanização, um momento de desvairamento. A obra é uma busca pela identidade nacional, mesmo na relação contraditória de sarcasmo e afeto pela cidade de São Paulo. Momentos que nosso país vive atualmente no cenário político e de sentimentos que eu mesmo vivo em relação à cidade. Mário inicia sua obra com o Prefácio Interessantíssimo, onde o autor já começa a utilizar de sua subjetividade poética para explicar ao leitor um pensamento, considerado por muitos, como um sinal de manifesto (muitas vezes em nome da sua própria figura):
Quando sinto a impulsão lírica escrevo sem pensar tudo o que meu inconsciente me grita. Penso depois: não só para corrigir, como para justificar o que escrevi. Daí a razão deste “Prefácio interessantíssimo”. 
Às vezes, me sinto assim também. Escrevendo sem rumo e sem um conceito previamente desenhado, que, aos poucos, por meio deste meu louco brainstorming de ideias, vou afunilando em um único texto.

Que louco não? São Paulo me traz essa ebulição de pensamentos desconexos. É muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. E esta ebulição de coisas e comportamentos, no princípio do século, é que movimentou a cultura brasileira que estava estagnada. Se começou com a Semana de Arte Moderna, em fevereiro de 1922, lá mesmo em São Paulo, até hoje é impossível dizer se já terminou. O Modernismo descobriu um outro Brasil e seu passado artístico. E esse passado continua presente e fervilhante nos eventos paulistas. 

Estar em São Paulo é me alimentar de cultura. Me alimentar de inteligência. Me alimentar de acesso intelectual. Acesso esse, que tem estado cada vez mais escasso no meu tão amado Rio de Janeiro. Uma cidade, que já foi intitulada como maravilhosa, e que hoje é apenas a lembrança do purgatório do caos. Uma cidade sem investimentos. Uma cidade sem segurança. Uma cidade que, hoje, está tomando o pior título que São Paulo já ostentou: cinzenta. 

Volto para casa no fim da tarde de domingo ainda cantarolando o samba que se fez trilha sonora nestes dias pela terra da garoa, mas repetindo uma parte dos versos, como quem clama em oração, acreditando que o cinza que hoje faz parte de nosso cotidiano, se esvaia nas águas das chuvas revelando as cores escondidas por trás do descaso...
... Quero a arte pro meu povo
Ser feliz de novo
E flutuar nas asas da ilusão...
Leia Também:
Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
FacebookTwitter



A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Nenhum comentário: