terça-feira, 10 de setembro de 2019

O Beijo da Discórdia




Eu juro que tento, vez ou outra, não falar de política aqui. Esse tema já me causou muitas tretas. Mas a tríade governamental a que estou submetido enquanto cidadão (leia-se poder municipal, estadual e federal), além de me causar um nojo constante, me fere de forma reiterada.

Uma cena inédita na história da Bienal do Livro do Rio de Janeiro surpreendeu editores e provocou uma reação em massa contra a tentativa de mais um episódio de censura no Brasil: um grupo de fiscais da Secretaria Municipal de Ordem Pública percorreu, no início da tarde de sexta-feira (06/09), os estandes do evento para recolher livros com temas ligados à homossexualidade.

Eram liderados pelo coronel Wolney Dias, ex-comandante da Polícia Militar e atual subsecretário de operações da Secretaria Municipal de Ordem Pública do Rio. E estavam ali por determinação do patético prefeito Marcelo Crivella, que havia visitado o evento um dia antes e se escandalizou com o romance gráfico da Marvel Vingadores: A Cruzada das Crianças. A obra contém a história do casal Wiccano e Hulkling e, em uma das páginas, eles se beijam. São homens. O prefeito, evangélico conservador (traduzindo em realidade: parente do Bispo Edir Macedo, aquele dos lendários sacos de dinheiro do Maracanã dos anos 80 e que enriqueceu às custas da fé do povo), considerou a cena inapropriada e determinou que a obra fosse retirada das prateleiras, mas a organização recusou —e, mais tarde, a Justiça proibiu. Os livros, no entanto, desapareceram em poucas horas. Assim que a polêmica ganhou as redes, todos os exemplares que estavam disponíveis foram comprados. 

Sua fala manipuladora de tempos de bispo, foi reproduzida nas redes sociais, com argumento deturpado: 
“Pessoal, precisamos proteger as nossas crianças. Por isso, determinamos que os organizadores da Bienal recolhessem os livros com conteúdos impróprios para menores. Não é correto que elas tenham acesso precoce a assuntos que não estão de acordo com suas idades.”, disse o chefe do poder municipal em seu Twiter.
Em resposta à ação de Crivella, o youtuber Felipe Neto distribuiu gratuitamente mais de 10.000 livros com temáticas LGBT durante a Bienal do Livro no Rio, no sábado (07/09). As publicações foram envolvidos em plástico negro com um adesivo: 
Este livro é impróprio para pessoas atrasadas, retrógradas e preconceituosas.
Mas, infelizmente, a atitude de Marcelo Crivella não é isolada. Três dias antes, o governador de São Paulo, João Dória (o candidato que teve supostos vídeos vazados fazendo suruba com garotas de programa às vésperas da eleição), havia mandado recolher das escolas estaduais paulistas um material didático de Ciências para adolescentes de 13 anos que, segundo ele, fazia apologia à "ideologia de gênero". Ele se referia a uma apostila que continha o texto Sexo biológico, identidade de gênero e orientação sexual, com uma explicação sobre as diferenças entre os termos “transgênero”, “homossexual” e “bissexual”. No mesmo dia da determinação de Dória, o presidente Jair Bolsonaro - que já havia se envolvido em (mais) uma polêmica no período pré-eleitoral por mentir sobre livro de educação sexual que integraria o que chamou de kit gay nas escolas públicas - pediu ao Ministério da Educação para elaborar um projeto de lei contra o que chama de "ideologia de gênero" no Ensino Fundamental. 

O fato é que posturas como a do prefeito Marcelo Crivella, do governador João Doria e do presidente Jair Bolsonaro tentam colocar a sociedade brasileira em tempos medievais, quando as pessoas não tinham a liberdade de expressar suas identidades. Eles desprezam valores fundamentais da sociedade e tentam impedir o acesso à informação séria, utilizando-se de uma política infame de desmantelamento da educação pública, além de tantas outras artimanhas. Afinal, quem não é informado, vota mal. À outra parcela, atribui-se simplesmente a parte da população que é bem informada e simplesmente, ESCOLHE, seja por quais razões forem, defender – e apoiar – esse tipo de comportamento. 

O que aconteceu na Bienal este ano é algo completamente arbitrário. E o mais triste é que não é um caso único ou pontual. Este é mais um ataque em um país que vem sofrendo com este tipo de ascensão da censura, no caso, o nosso. São reiterados episódios lamentáveis e inadmissíveis e que mostram que estamos caminhando a passos largos para revivermos momentos do pior tempo da história do Brasil.

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Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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