sexta-feira, 13 de setembro de 2019

O Beijo Foi Só a Ponta do Iceberg





É claro que toda aquela polêmica de enviar agentes da Secretaria de Ordem Pública no intuito de causar burburinho e apreender uma HQ de super-heróis escrita há 10 anos, sendo vendida como saldão na Bienal do Livro, foi uma atitude visando a eleição de 2020. Foi um movimento arquitetado para reforçar o discurso conservador que elegeu um presidente da República e governadores de vários Estados. Os conservadores estavam eufóricos com a repercussão, pois quanto mais se discutia o assunto nas redes e na mídia em geral, mais se solidificava a prestação de contas para quem o escolheu.

Pela primeira vez, tive que concordar com Felipe Neto. Por mais que pareça um discurso politizado – e afinal, qual o problema de ser politizado? – a perplexidade era tamanha que eu só podia assinar embaixo. Em tempos em que dizem que a Terra é plana, com trocentas mil teorias que podem comprovar isso e que Lennon e McCartney nunca compuseram uma canção dos Beatles, mas sim o filósofo-sociólogo Theodor Adorno (aquele mesmo da Escola de Frankfurt), a gente tem é que rezar todo dia para não acordar amando a obra de Romero Britto – que junto com Ratinho (!) foram escolhidos para serem os novos embaixadores do turismo brasileiro. Zuêra never ends? Fakenews? Não... O pior é que é verdade. 

Não canso de repetir: o mundo andou pra trás e não estou exagerando. A internet matou a janela e estamos cada vez mais reféns de conexões líquidas onde todo mundo se acha o dono da verdade absoluta. Todo mundo é fotógrafo, todo mundo é publicitário, todo mundo é jornalista, todo mundo é coach, todo mundo é psicólogo. E se você tem um número considerável de seguidores, pode ser um digital influencer ou um youtuber. Pude comprovar, na Bienal, o sucesso que essas pessoas fazem em tempos líquidos.

Morro de pena dessa geração atual. Fico imaginando como será um Enem daqui a 10 anos. Como será a nova edição revista e atualizada daquele calhamaço do História das Sociedades? Teremos um volume exclusivo para discutir a loucura que estamos vivendo em nossos dias?

Com essa história toda envolvendo a perseguição aos coitados dos super-heróis, só penso em agradecer por ter feito parte da geração X e por ter absorvido tanta coisa interessante sem essa coisa de filtro. É muita hipocrisia tentar tapar o sol com a peneira dizendo que os jovens de hoje em dia – com toda a tecnologia e acesso fácil em qualquer celular vagabundo e sinal de wifi – não tem acesso a conteúdos que fariam corar até o Marquês de Sade. Vão fazer o quê? Acabar com o X-Vídeos?

Controlar a internet como se faz na Coreia do Norte, Síria ou Tunísia? Deixar que os prestadores de serviços da internet passem a informar ao governo os endereços e informações pessoais de blogueiros?

Se levarmos em conta que artistas estão sendo ameaçados em cima de um palco, este cenário não parece ser tão distante assim. O beijinho inocente dos super-heróis foi só a pontinha do iceberg. E aí dá um medinho danado... 

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Um comentário:

Márcia Pereira disse...

Medinho??!! Está sendo generoso, amigo! É pânico, pavor, pelo que pode vir por aí!