sexta-feira, 6 de setembro de 2019

O Lázaro Que Existe Em Todos Nós





Como um fã que se preze, não poderia deixar passar em brancas nuvens o espetáculo Lazarus, escrito por David Bowie e pelo dramaturgo irlandês Enda Walsh, em cartaz no recém-inaugurado Teatro Unimed, em São Paulo. Lazarus foi o último trabalho realizado em vida pelo astro inglês, que morreu aos 69 anos, em 2016. Neste mesmo ano, muito abalado pela perda – que, pra mim, é irreparável - lancei meu primeiro livro, inspirado no encontro inusitado que tive com ele, no aeroporto do Rio de Janeiro, em 1997. 

Chegando em Sampa, de mala, cuia e ansiedade em poder assistir algo que eu sequer imaginava que poderia ter uma versão tupiniquim, meu coração acelerou como há 22 anos atrás, quando ele se dirigiu a mim, tirando seus óculos escuros, revelando seus singulares olhos e me entregando sua bituca de cigarro. Antes mesmo do espetáculo começar, o som ambiente do teatro tocava A perfect day, de Lou Reed, seguida pela caótica White Light, White Heat, do Velvet Underground e meu coração acelerou ainda mais... Vem coisa boa por aí, pensei alto, com meus botões. E, assim foi...

Quando as luzes se acenderam, ao final de 2:15, o fundo do palco mostrava o clipe da clássica Heroes e eu me contive para não cair no choro. Completamente atordoado com aqueles sons e imagens, fui até ao banheiro e pude ouvir ainda com os acordes finais da canção, a conversa entre dois senhores: eu odieeeeei! Não entendi nada! O outro fez um shhhhh recriminatório e, disfarçadamente constrangido (como se fosse uma grande heresia não gostar de Deus), consentiu balançando a cabeça segundos depois.

Achei engraçado aquela cena. Acredito que Bowie acharia também, pois Lazarus não foi elaborado para ser uma unanimidade... É realmente um labirinto e as mensagens são milimetricamente codificadas. Leva tempo – uma eternidade, talvez - para podermos compreender tudo o que é transmitido naquelas entrelinhas, como toda a vida e obra de David Bowie que, convenhamos, nunca foi superficial!

Para os desavisados, Lazarus não é um musical sobre Bowie. Fala de finitude e ressurreição. E de um ser que precisa lutar contra a angústia de deixar tudo pra trás e conseguir voltar para sua origem que, no fundo, é a de todos nós: a manhã seguinte, o desconhecido. Foi inspirado no romance O Homem Que Caiu na Terra, publicado em 1963 e que teve uma versão cinematográfica em 1976 com o cantor fazendo o papel-título de Thomas Jerome Newton, um alienígena imortal disfarçado de humano que chega em nosso planeta para tentar salvar o seu, ameaçado pela falta de água. Thomas acaba se isolando, sem conseguir expressar suas relações com os outros e se torna um alcóolatra, solitário e distante, em busca de sua identidade.

O cenário impressionante faz com que Lazarus se transforme em uma viagem de sensações. Daniela Thomas e Felipe Tassara criaram um palco que se movimenta e fica enviesado em declives, com a presença de um enorme espelho, também móvel, promovendo um sensacional passeio ilusório, auxiliado pelas projeções e pela trilha sonora com 18 canções escolhidas a dedo por Bowie – algumas clássicas como Life on Mars, Valentine´s Day, Changes e Absolute Beginners (que passou despercebida) e outras inéditas, escritas especialmente para o musical, que conta com um elenco afiadíssimo. Jesuíta Barbosa, estreando em musicais, faz o papel do alienígena atormentado, mas todos os outros atores estão maravilhosos, como Bruna Guerin, Carla Salle, Rafael Losso e Gabriel Stauffer, com quem pude trocar uma ideia e contar um pouco da minha história.

A obra de Bowie é libertadora. Quando voltava para o hotel, folheando o programa do musical, me deparo com um trecho que me fez pensar o quanto sua obra é caleidoscópica... Anthea, Ítaca, Pasárgada, Ilê, Maracangalha. Todo mundo tem a sua. O Homem que Caiu na Terra foi publicado durante a Guerra Fria. Em um mundo polarizado entre direita e esquerda, conservadores e liberais, certo e errado, a percepção binária do mundo. Um mundo que rejeita tudo que é estranho. Um mundo praticamente idêntico ao contemporâneo. 

Obrigado mais uma vez, Bowie. Sua bituca ainda tá aqui comigo.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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