sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Se a Vida Começasse Agora?





Era uma sexta-feira. Lembro perfeitamente daquele dia: 11 de janeiro de 1985. Saí de casa dizendo que ia me encontrar com a galera do colégio e, literalmente, fugi com uma amiga rumo ao primeiro dia de shows do Rock in Rio. Se a Barra da Tijuca ainda é longe até hoje, há 34 anos atrás era quase como se tivéssemos que ir e voltar de Marte. O festival ficava no meio de um nada. Breu, poeira e lama. Aliás, muita lama.

Eu era um adolescente fissurado no The Cure, tinha aqueles cabelos a la Robert Smith e meu sonho era assistir a um show do Queen. Freddie Mercury era pra mim uma espécie de Deus do Olimpo da música. Essa amiga era toda descoladinha. Eu tinha 14 e ela, 21. Nem lembro se tinha essa obrigação de estar acompanhado de um responsável. Só sei que depois de horas e horas andando como se fizéssemos uma travessia bíblica, entramos. E eu fiquei tão ansioso e maravilhado com toda aquela novidade (e para todos os brasileiros, diga-se de passagem), que sequer prestei atenção nos shows que vieram antes: teve Ney, Erasmo, Pepeu & Baby, Whitesnake e Iron Maiden, que vi de longe, tamanha era a multidão. O som do Iron era absurdamente alto e eu estava enlouquecido. Sabia que ia levar uma surra da minha mãe quando chegasse em casa mas, naquele momento, só me restava curtir aquele momento.

E, quando o Queen entrou, parecia que os decibéis do Iron tinham se tornado caixinha de música. Era algo que estremecia o chão, ajudado pela voz absurdamente fantástica de Freddie. Foi um show inesquecível e que até hoje se mantém na minha lista dos top 10. Aquele coro de 350 mil pessoas cantando Love of my life regida por Mercury é icônico e que nunca sairá de minha memória. Chorei pra caralho. Pelo show e pela surra que levei quando cheguei em casa.

Seis anos depois teve mais uma edição, desta vez, no Maracanã. Eu tinha a mesma idade que Debbie Gibson, que se apresentou no mesmo dia do Information Society, A-ha e Happy Mondays. Naquele dia choveu cântaros. Mas eu resisti, bravamente. Naquela mesma edição vi Prince, Guns and Roses no auge do sucesso e um Mike Patton, do Faith no More, ensandecido, escalando o palco com uniforme de atendente do Bob´s.

Depois de um hiato de dez anos, a terceira edição voltou às origens da Cidade do Rock. Lá vi Cássia Eller mostrando os seios, Foo Fighters displicente e, ao mesmo tempo, arrebatador, peguei na mão do Michael Stipe do REM (que fez um show sensacional) e me diverti à beça com o Silverchair e com o Beck.

A quarta edição já estava monstruosa em tamanho e infraestrutura. Apesar de ser uma edição um tanto quanto básica, teve Stevie Wonder, System of a Down e um Coldplay inspirado. Desde aquela edição, o festival se tornou bienal. Nas outras edições, chorei de rir com o Ghost, vi o Muse, Metallica, Bruce Springsteen, o (espantoso) Royal Blood, Queens of the Stone Age, Slipknot, Elton John, Tears for Fears, Pet Shop Boys, The Who, Aerosmith...

Hoje, eu acredito que as pessoas nem vão mais para assistir aos shows, pois pouco importa quem está escalado no line-up. O evento se tornou uma espécie de Disneylândia sonora. São luzes, cores, marcas, brindes e muito merchandising. Novos tempos. Mas é impressionante como o Rock in Rio ainda mantém essa aura de conexão entre as diversas tribos ou aquela velha e esquecida mensagem de paz. E, mesmo para quem torce o nariz, uma coisa é certa: o Rock in Rio sempre terá sua importância. Quando surgiu, naquele 11 de janeiro de 1985, todos achavam que era uma espécie de nova versão de Woodstock e ninguém acreditava que aquilo pudesse dar certo. E as bandas internacionais vieram. E, mesmo com o público chafurdado na lama, aquilo tudo foi realmente incrível. 

Também houve a conexão histórica com o processo de redemocratização do país: três dias depois que eu estive assistindo o Queen, Tancredo Neves, ainda por voto indireto, era eleito presidente da República numa data que simbolizou o fim de mais de vinte anos de ditadura militar. Naquela noite, Cazuza, ainda no Barão Vermelho cantava “estamos meu bem por um triz / pro dia nascer feliz” num gesto até meio ingênuo se compararmos com a nossa situação atual. 

O Rock in Rio é uma experiência. Em cima daquele palco absurdamente imenso (que tive o privilégio de poder pisar esta semana) ficamos sempre na expectativa de que surjam novas apresentações memoráveis e que se tornem icônicas. Trinta e quatro anos depois, aquele cântico que está na memória de todos nós, mas um tanto adormecido, tenta, mais uma vez, renascer e fazer um pouco de sentido.
"Se a vida começasse agora
E o mundo fosse nosso outra vez
E a gente não parasse mais de cantar, de sonhar
Que a vida começasse agora 
E o mundo fosse nosso de vez
E a gente não parasse mais de se amar, de se dar, de viver"
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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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