quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Years and Years: O Retrato do Nosso Presente




"Tudo ia bem até uns anos atrás, antes de 2008. Lembram? Achávamos política um assunto chato. Bons tempos! E agora, me preocupo com tudo. Nem é o governo, são os bancos. Eles me apavoram. E não só eles. As empresas, as marcas, as corporações que nos tratam como algoritmo enquanto envenenam o ar, a temperatura, a chuva. E agora temos os Estados Unidos. Nunca achei que fosse ter medo deles, mas temos fake news, fatos falsos, nem sei mais o que é verdade. Em que tipo de mundo vivemos? Se está tão ruim agora, como vai ser pra você daqui a 30 anos? Dez anos? Cinco anos? Como vai ser?"
Esse é um dos mais potentes momentos iniciais de Years and Years, série obrigatória para todos que acreditam que estamos à beira de uma grande distopia. Afinal, você já parou para pensar que o atual momento que estamos vivendo é digno de uma boa trama de ficção cientifica, não é mesmo? Em alguns níveis, é possível dizer que é tudo muito Black Mirror e com umas boas doses de um grande dramalhão nonsense sem fim.

Se você ainda precisa de uma prova que o noticiario é uma grande cortina de fumaça para o louco mundo que estamos vivendo, é só assistir Years and Years, coprodução BBC One com a HBO. A série tem uma ideia muito simples: mostrar as mudanças políticas e sociais do mundo aos olhos de uma família comum, os Lyons, que moram em Manchester, noroeste da Inglaterra, e levam uma vida bastante normal enquanto o mundo fica mais tecnológico e hostil. 

O "monólogo" incial que abre o meu texto é dito por Daniel enquanto acolhe em seus braços seu sobrinho que acaba de nascer, o que estabelece mais ainda o tom meio melacolico da cena. Uma criança acaba de nascer em um mundo que se perde a cada dia. Apesar de focar nos membros de uma mesma família, é importante ressaltar que existe muita diversidade entre os Lyons: oriental, transexual, branco, negro, LGBTQ+, hétero, com deficiência, sem deficiência, pobre, rico... E por aí vai. 

A matriarca da família Lyons é Muriel (Anna Reid). Ela criou os quatro netos após a morte da filha. Edith (Jessica Hynes) é a filha mais velha. Idealista, viaja o mundo pregando um estilo de vida mais igualitário e lutando contra grandes corporações. Stephen (Rory Kinnear) é o filho mais velho. Responsável, trabalha como consultor financeiro, é casado com Celeste e pai de duas meninas. Daniel (Russell Tovey) é gay e possui um relacionamento estável. Rosie (Ruth Madeley) é a irmã mais nova e mãe de dois filhos. É dela, inclusive, a criança que Daniel segura no hospital. 

A série segue as mudanças políticas e econômicas que vão acontecendo no mundo, mas tendo o ponto de vista dessa família. Desde um colapso financeiro, passando pelo problema de emigração desenfreada de países que estão falindo, conforme o mundo acaba assumindo novos tipos de guerra. 

Years and Years é o tipo de série que você precisa ver. Acredito que para os brasileiros exista um gosto amargo na boca ao ver Vivienne Rook tendo um comportamento similar e bem próximo do nosso presidente da república. Fiquei constrangido por boa parte dos episódios, mas também me senti meio vingado por saber que o mundo possui clareza sobre o que anda acontecendo politicamente por aqui... Mas não acaba surtindo efeito e nem fazendo muita diferença, já que o nosso pesadelo, infelizmente, só está começando.

Leia Também:
Leandro Faria  
Silvestre Mendes, o nosso colunista de quinta-feira no Barba Feita, é carioca e formado em Gestão de Produção em Rádio e TV, além de ser, assumidamente, um ex-romântico. Ou, simplesmente, um novo consciente de que um lance é um lance e de que romance é romance.
FacebookInstagram


A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Nenhum comentário: