segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Instinto (ou Como Afiar os Dentes Com a Língua)




O vampiro da lambida áspera (a) atacou novamente, segurou pela cintura com as garras retraídas, subiu-lhe pela lateral da barriga sentindo-a com as papilas em direção às tetas já rijas. Arrancou-lhe o ar ao passar a mão por entre as coxas morenas. Devolveu-lhe o sangue às bochechas ao roçá-las com a barba por fazer. Não era mais possível saber de quem era o suor que impregnava a pele de ambos. Procurou pelo pescoço ao mesmo tempo que a prendeu com o abraço forte que precedia o ataque final. Fincou-lhe as presas com força, sorvendo o licor úmido que ansiava. Extasiou-se com o pulsar dos corpos. E, então, do deleite veio o cansaço momentâneo. 

E os corpos permaneceram largados na cama por bons minutos, dando tempo aos líquidos de secarem. 

Saiu sem olhar para trás. Não era mais problema seu. Precisava se esconder da luz que já ameaçava aparecer por entre a penumbra difusa do adiantado da hora. Passou por um beco, já não muito distante da sua casa e admirou o belo sorriso que se sobressaía no velho prédio ao lado. Uma xícara de café também lhe cairia bem, mas como não havia sido convidado resolveu continuar em seu caminho - não sem antes ter certeza de que também fora notado. 

Ao deitar, relembrou do gosto que ainda preenchia sua boca, do cheiro que ainda percorria seu corpo, da fome que sempre habitava seu ser - e do rosto por trás do vidro meio embaçado naquela janela. Dormiu. 

Uma vez quando pequeno lhe disseram que os roedores precisam continuamente gastar seus dentes. Sabia que enfrentaria problema similar. Em vez de dentes, desesperava-se com a língua. Preferiria que fossem os dentes - que também lhe eram proeminentes. Mas não seria tão simples. Foi logo depois de uma festa, daquelas que se tem na faculdade e não se lembra de nada posteriormente. Acordou quase nu, sozinho, de ressaca, marcas pelo corpo e uma indelével sensação de prazer. Demorou a perceber também os hematomas no pescoço. Não pentear o cabelo fazia com que espelhos já não fossem uma constante em sua rotina. 

Uma leve coceira surgiu depois de alguns dias. Junto com uma estranha sensação de desejo. De lambidas vigorosas, de pegadas desconcertantes, de mordidas rasgastes. Quando lhe foi impossível resistir aos impulsos, saiu em busca da saciedade - que ainda não obteve. Aprendeu a lidar com a corte, a caça, a aproximação, o ataque. Afinava a aspereza da língua, afiava os dentes, gastava as garras, sorvia-se do sangue, largava os corpos. Com esse último não aprendeu muito a lidar. Alguns permaneciam vivos, mas quando a fome era muita, o resultado era quase sempre o mesmo, e fatal. 

Mas o vampiro da língua áspera não queria deixar de sê-lo. 

Na semana seguinte, após alguns minutos sentado no bar, reconheceu o sorriso que tinha visto próximo dali. Em vez da xícara de café, uma caneca de cerveja. Estudou a presa, garantiu que estivesse sozinha. Se aproximou. Galanteante. E o inesperado, se tornou real. A flecha entorpecida rasgou o coração sem ter perfurado a pele áspera que o protegia de desilusões futuras. Conversaram. Riram. Abstraíram-se. Ela lhe disse que precisava ir por causa do adiantado da hora. Ofereceu-se para acompanhá-la. Subiu, por ter sido convidado. Mostrou-a o poder de sua língua, mas a poupou do ferimento, mesmo que continuasse com fome. Ficaram um tempo ali, curto, mas intenso. Saiu antes do primeiro raio de sol, deixando-a adormecida. 

Uma semana se passou. 

O sangue coagulado permaneceu sobre seus pêlos vindo do vazamento  leve e constante que lhe varava pelos poros abertos do peito. Depois de uns dias, as camisas não mais ficavam manchadas de vermelho, mas podia ainda sentir o sangramento interno, a ânsia por preencher as veias com qualquer coisa fermentada, destilada ou hemoglobinada. Era o fingimento com desculpa da língua áspera. Fuga. 

Foi à caça, como lhe mandava o instinto. Fartou-se. Mas não saciou-se. 

Passou outra semana. 

Um novo pescoço, duas novas tetas, duas outras coxas a serem asperamente lambidos. O sangue que lhe cobriu o peito agora era outro, não seu. E não se saciou. 

Na mesma noite, continuou a ronda. Viu-a de relance em um novo bar próximo. Sorria. Parecia feliz. Não podia ver muito de onde estava, mas ensaiou as palavras que sairiam do peito aberto. "Quero me perder nesses olhos escuros com a cor da noite que agora está vazia de você aqui no meu litoral. Quero me lembrar da força vigorosa do seu sorriso próximo ao meu, de ver sua pupila se contrair ao abrir os olhos do leve cochilo induzido pelo meu cafuné. Quero me lembrar de como é sentir o seu peito no meu, acompanhando a respiração tranquila na cadência da nossa entrega. Quero me perder no tempo, suspenso em seus braços, esperando que a eternidade daquela noite se repita."

Aproximou-se. Entrou no bar. Conversava alegremente com outro alguém. 

Mais bonita, mais charmosa, mais alegre, mais sorridente, mais galanteante, mais convidativa, mais do outro, menos sua, mais disponível, mais oferecida, mais biscate, mais vagabunda, mais puta, mais descartável. 

Foram longos minutos observando, analisando e alterando sua opinião em velocidade extrema. O suficiente para que o sangue antes coagulado saísse do peito e alimentasse a úlcera - passional. 

Esperou. Esperou. Esperou. Seguiu-os. Não precisava mais de convite para entrar no apartamento. Tocou a campainha. Ao sinal de aproximação da porta, arrombou-a. Estava atônita, mas ainda não era sua vez. Jogou-o na parede. Atordoado foi mais fácil quebrar-lhe o pescoço. 

Ela ali na sua frente vendo pela primeira vez as presas em tamanho completo. Paralisada. 

O vampiro da lambida áspera (a) atacou novamente, segurou pela cintura com as garras fincadas na carne, subiu-lhe pela lateral da barriga sentindo o sangue escorrer. Com as papilas sentiu o seu sabor e seguiu em direção às tetas já sem tanto vigor. Arrancou-lhe o ar ao passar a mão por entre as coxas. Sorveu-lhe o sangue, raspando a barba por fazer na pele lisa. Procurou pelo pescoço ao mesmo tempo que a prendeu com o abraço forte que precedia o ataque final. Fincou-lhe as presas com força, sorvendo o resto do licor úmido que ansiava. Extasiou-se com o pulsar cada vez mais fraco do corpo. E, então, do deleite veio o cansaço momentâneo. 

Contemplou sua obra por algum tempo antes de se limpar. Hora de se afastar da cidade por um tempo. Novos ares, sangue novo. Saiu. Alguém limparia a bagunça. 

- - -

Tinha a língua áspera. 

Mas ainda era um vampiro. 
Texto originalmente escrito em 10 de novembro de 2016

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