sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Onomatopeias





Há algumas semanas, publiquei na coluna um texto sobre a polêmica envolvendo aquele beijo dos super-heróis que causou um rebuliço na Bienal do Livro, quando agentes da secretaria de ordem pública da prefeitura do Rio recolheram exemplares que pudessem manchar a reputação das famílias. Como tinha explicado, tudo fazia parte de um movimento arquitetado visando as eleições do ano que vem, pois já estão criando material de campanha para dar continuidade ao discurso conservador que assola o país.

Depois que a coluna foi publicada, fiquei pensando nas antigas HQ´s que eu colecionava quando criança, com as historinhas da Turma da Mônica, almanaques do Tio Patinhas e Luluzinha e minha fascinação por todo aquele ambiente lúdico, como a Casa da Árvore do Bolinha, símbolo maior da independência na mente infantil. No início dos anos 70, aprendi a ler por causa dos balõezinhos das HQ´s e me comunicar por gestos baseados em onomatopeias. Até hoje sou assim... quando quero narrar uma briga com tiros, porradas, bombas, socos e pontapés, produzo os sons com os pows!, socs!, buuums e póins!. As onomatopeias acompanham minha vida.

Lembro perfeitamente de umas revistinhas publicadas pela Rio Gráfica Editora (RGE) que eu amava: Bolota, Brotoeja e Tininha faziam muito sucesso à época. Os títulos eram adaptações das personagens da Harvey Comics - Little Lotta, Little Dot e Little Audrey. Também tinha o Richie Rich - Riquinho, Gasper, The Friendly Ghost – Gasparzinho (ambas com adaptações para o cinema) e Hot Sutff, The Little Devil - Brasinha. Esse último era o mais louco... 

Criado em 1957, Brasinha já criava polêmica à época entre diversos setores, principalmente nas instituições religiosas, pois o personagem era literalmente um diabinho retratado em uma HQ voltada para o público infantil, que vivia em um mundo cheio de fadas, gnomos, ogros e outros diabinhos. De fraldas, cauda e chifres, Brasinha todo faceiro já incomodava muita gente – tanto que não fez o sucesso de Riquinho e Gasparzinho, que mais tarde chegaram até a ter versões para o cinema – mas certamente ainda vivíamos em uma época com muito menos hipocrisia. 

No Brasil, foi editado pela editora O Cruzeiro, em meados dos anos 60 e, depois, pela RGE, disputando páreo a páreo com a Turma da Mônica e as revistinhas da Disney. Somente no fim dos anos 80, com a queda das vendas, a Rio Gráfica deixou de publicar e nenhuma outra editora teve o interesse em publicar as historinhas do diabinho. Fico imaginando como isso seria analisado hoje... Incitação ao satanismo?

Sempre achei supernormal aquelas cenas em que Pernalonga beijava personagens masculinos. Todo mundo deve se recordar que o caçador Hortelino era alvo certo nos assédios. Até o Pica-Pau já se vestiu de mulher e apareceu insinuante e rebolativo para conquistar Leôncio e se dar bem em um banquete. Papaléguas, Tom & Jerry, South Park, Beavis & Butthead, Ren & Stimpy e Os Simpsons sempre foram politicamente incorretos, assim como Didi Mocó vivia aplicando golpes nos três amigos. Na minha adolescência, as fotonovelas pornôs suecas compartilhadas pelos amigos eram exibidas nas bancas de jornal e a Ele & Ela (prima pobre da Playboy) da Roberta Close circulava por todos os membros da família. Naquele tempo, os bilheteiros dos cinemas “poeirinhas” nunca encrencaram com a menoridade. Artistas saíam nus na G Magazine e todo mundo zoava – até o paspalhão do Roger do Ultraje a Rigor – que hoje posa de conservador – já clicou peladão naquelas páginas da revista, a avó dos nudes virtuais. 

Impressionante como nada disso hoje funcionaria, pois vivemos em um mundo onde o puritanismo retrógrado e, ao mesmo tempo, totalmente fake, reina. Mas o que me deixa mais espantado é observar que um beijo entre dois personagens de histórias em quadrinhos pode estarrecer muito mais do que expor meninas de 7/8 anos em rede nacional – como mostrou recentemente Silvio Santos – de maiô para disputar entre o público “quem tinha as pernas mais bonitas, o colo mais bonito, o rosto mais bonito e o conjunto mais bonito”. Essa sociedade me cansa e onomatopeias rondam esse meu desânimo: aaaaaff! Humpf! Bleargh!

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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