sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Os Anjos





Lembro-me bem de ser um aluno um tanto quanto problemático.  Era muito tímido e, nas poucas fotos que ainda possuo, percebo que não gostava de sorrir.  O semblante era sempre triste e cabisbaixo, meio emburrado.  Chorava escondido, tinha medo de me relacionar com os demais e me sentia diferente por não conseguir acompanhar as aulas. 

No primeiro ano do ensino fundamental, encontrei meu primeiro anjo:  a professora que me alfabetizou descobriu o motivo de ser sempre o atrasado nas tarefas e precisar ficar até depois da aula para conseguir copiar para o caderno tudo o que era escrito no quadro-negro.  Ela identificou que eu tinha um problema de visão e, por isso, não conseguia enxergar o que era escrito, mesmo a uma distância considerável.    

Ser levemente estrábico e usar óculos sempre foi motivo de piada entre os coleguinhas.  Eu era o zarolha e o quatro olhos.  Quebrava as lentes facilmente ao deixá-los cair e passei a não frequentar as aulas de educação física com medo de levar uma bolada, ou tropeçar.  E isso fez com que eu me isolasse ainda mais. 

Troquei de colégio e mudei para a Baixada Fluminense.  Lá, não tinha amigos.  Era um menino que vivia sentado em um canto lendo revistinhas em quadrinhos e sendo zoado pelos demais.  Pensei que a vida inteira seria assim.  Eu adorava quando o fim de semana chegava e eu ia para a casa da minha avó e saia com minha tia Lene, que me presenteava com livros e histórias em quadrinhos.  Quando as férias chegavam era o ápice da felicidade, pois ficaria longe da tortura de ter que ir para o colégio.
 
Ao retornar para o subúrbio, uma nova troca de escola.  E os mesmos dramas de sempre.  Já tinha até me acostumado, quando tive o baque da morte precoce de minha tia, em um acidente.  Logo ela, a que mais me protegia e dizia que um dia eu seria famoso e ia adorar andar de carro comigo... Partiu deixando comigo a saudade e os primeiros livros que ganhei na vida.

Neste mesmo ano, outro anjo apareceu na minha vida:  Tia Cleide.  A professora que me ensinou a me posicionar, reprimindo os meninos que debochavam do meu jeito desengonçado que se escondia atrás das grossas lentes.  Do meu jeito, tentava me impor e ela ia lapidando as arestas.  Foi ela que ratificou minha paixão pela leitura, ao me presentear com livros da coleção Para Gostar de Ler.  Aos 8, 9 anos, era uma criança que adorava crônicas, principalmente Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Lygia Fagundes Teles e Carlos Drummond de Andrade – ou seja, uma criança nada normal, não é mesmo?

No intervalo do recreio, corria para a biblioteca para ler capítulos dos vários livros de Monteiro Lobato.  E lá, por entre corredores e mesas quadradas que refletiam o sol que entrava pelas persianas irregulares, fui encontrando a minha turma.  Pequenas crianças que, assim como eu, também buscavam na leitura um refúgio. 

No ano seguinte, Tia Cleide deixou de ser minha professora exclusiva e passou a dar aulas de Geografia.  Já estava na quinta série.  Lembro-me que, uma certa manhã a chamei de tia, como era de costume.  Ela me chamou em um canto e disse algo que nunca esqueci:  naquele dia em diante, eu já estava crescido demais para chamá-la de tia.  Fui impactado por um misto de surpresa, decepção e tristeza.  Mas ali, naquele momento, passei a considerar o primeiro passo do meu amadurecimento.  Crescer iria doer.  E ela me mostrou isso, antecipadamente. 

De vez em quando a encontrava nos corredores do colégio.  Eu a olhava com uma certa desconfiança e ela sempre sorria e bagunçava meus cabelos encaracolados.  A partir daqueles gestos, por alguns momentos, me sentia confiante.

Meses depois, nas férias, ela morreu em um acidente.  Recebi a notícia assim que o ano letivo recomeçou e foi um choque.  Não sei como consegui seguir com aquele ano, pois até hoje é como se tivesse passado em branco, pois não me recordo de praticamente nada de meus onze anos e de 1981.  Era como se a história da morte de minha tia, três anos antes, também em um acidente, estivesse se repetindo.  Partiu deixando comigo a saudade e mais livros.

Aos doze anos escrevi meu primeiro conto baseado em uma criança que tinha amigos imaginários.  Tinha um diário onde narrava essas aventuras; um misto de Goonies com Turma da Mônica.  Em uma dessas mudanças, meu pai jogou essas lembranças no lixo, juntamente com minhas tampinhas de Coca-Cola da Disney e minha coleção de fichas de ônibus.  Durante anos, sonhei com a volta de minha coleção e, principalmente, de meu caderno de anotações, que nunca apareceu.  Então pedi para que, de alguma forma, alguém encontrasse aquele caderno e viajasse por entre meus pensamentos.  Acho que ali, naqueles momentos, surgiu o embrião de querer, um dia, publicar livros.

Eu já estava consciente que, crescer doeria bastante.

Essa semana, assistindo algumas matérias sobre as comemorações pelo Dia do Professor, lembrei dessas histórias.  Sempre estudei em escolas públicas e nunca deixei de me orgulhar disso.  Nunca me esqueci dos professores que me alfabetizaram e do carinho que eles sempre tiveram comigo e sempre tive muita honra deles.  Tive também muita sorte em poder cruzar com anjos tão importantes em meu caminho.  Em um país que cada vez mais rechaça essa categoria, eu posso dizer que tive muita sorte.
 
Hoje, ao rever a foto que ilustra esta coluna com a eterna Tia Cleide, percebo o meu sorriso desconcertado e sem graça e consigo, entre lágrimas, soltar a gargalhada que ela nunca viu.     

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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