sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Rindo Por Fora, Chorando Por Dentro





Essa semana tivemos uma overdose de textos do Barba Feita sobre o novo filme Coringa (Joker, no original) de Todd Phillips, brilhantemente interpretado por Joaquin Phoenix.  Tanto o Julio Britto quando o Silvestre Mendes já falaram sobre o filme aqui e, vim para complementar, tentando não dar spoilers para quem ainda não o assistiu.

Pra começar, gostaria de fazer, antes, um prólogo.  Todos devem se lembrar daquela máscara que todo mundo usava nos protestos de 2015 e 2016, baseada na HQ e filme V de Vingança, que contava a história de Guy Fawkes, uma figura misteriosa que organizou um plano para explodir o Parlamento inglês.  A obra foi escrita por Alan Moore e finalizada em 1988, ainda sob o governo da Dama de Ferro, Margaret Thatcher e influenciada pela Guerra Fria.   Apesar de usarem nos protestos, muita gente não sabia que aquela máscara retratava um terrorista, um anti-herói.  Sem querer, aquela figura acabou se tornando um emblema do ativismo moderno.  Tanto no filme, como na HQ, todos torcíamos pelo terrorista.

No novo Coringa, acabamos tendo uma espécie de mesma epifania, o que tem causado uma certa polêmica.  Já tem gente dizendo que o filme é influenciado pelo Gramscismo e com ideologia esquerdista.  Recomendo ao Coringa que vá morar em Cuba ou Venezuela, dizia um dos milhares de posts criticando o filme.  Nessas horas, só me resta revirar os olhos e tentar girar a cabeça em 360 graus até vomitar verde.  Essas pessoas me cansam.

Assim como V, o personagem de Arthur Fleck, um comediante falido, também é visto como um anti-herói.  Ficamos deprimidos com a forma com que a sociedade o oprime, o quanto se desgasta para cuidar da mãe e temos até o toque freudiano do trauma causado pela ausência do pai.  É claro que o candidato a prefeito de Gotham City, Tomas Wayne, é uma versão de Donald Trump: o Mr. President democrata que quer limpar a cidade, detesta pobres e tem um discurso hipócrita e moralista.  Mas o que mais impressiona no filme é exatamente esse espelho que ele projeta aos espectadores.  Qual o motivo de torcermos para um personagem que realiza as atrocidades mais cruéis?  E o mais complexo de tudo:  será que realmente tudo aquilo que vimos acontecer no filme foi real?  Não podemos esquecer que praticamente toda a película é realizada a partir do ponto de vista de Arthur.  Em várias cenas, o diretor deixa bem explícito isso.  As cenas em que aparece com a vizinha é um exemplo.  Realidade ou delírio? 

Portanto, a cena final, tão controversa com o caos instalado, pode muito bem ter sido somente uma projeção da mente doentia do personagem, pois quem leu as HQ´s sabe muito bem que a loucura do Coringa foi sendo construída em etapas.  Na HQ A Piada Mortal, também escrita por Alan Moore, isso fica claro.  E, baseado na história, o Coringa de Joaquin Phoenix chega até ser inofensivo.  Entretanto, ao longo do filme, vai sendo construído e envolvido em diversas camadas.  Se o novo Coringa fosse um Star Wars, O Cavaleiro das Trevas de Heath Ledger seria o Império Contra-Ataca.  Ali a loucura vai sendo construída bloco por bloco... E alicerçada até tornar-se incontrolável.

O Coringa de Phoenix é completamente distinto das versões anteriores, seja a de Jack Nicholson, Heath Ledger ou Jared Leto.  Não é visto como o sarcástico-debochado, como contraponto do homem-morcego, que em nenhum momento ri e é tão esquizofrênico quanto.  O novo Joker ri por fora, mas chora por dentro.

Como bem resumiu a amiga Bianca Blues em seu post no Facebook sobre o filme:
Coringa é  um filme sobre a loucura, a razão e o quanto acreditamos que a temos. É sobre popularidade, o não olhar para o outro e o olhar para si mesmo. É sobre como insistimos em não aceitar o diferente e como não sabemos lidar com o esquisito. É como a falta de afeto, de atenção e compreensão permeiam a vida de alguém. É sobre a banalização da violência e como uma arma em mãos intensifica a solidão de quem já é solitário. É principalmente um filme sobre SAÚDE MENTAL. Na narrativa (re)cria um personagem verticalizado e denso com a atuação impecável de Joaquim. Se recomendo? Estão convocados”.
E eu assino embaixo.


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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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